O niilismo, oriundo do latim “nihil” (nada), é uma corrente filosófica que se estabeleceu como uma reflexão profunda sobre a natureza da existência, a possibilidade do vazio de sentido e a validade das crenças humanas (PECORARO, 2007). Seu cerne reside na negação de valores absolutos, na descrença em sistemas de significado preexistentes e na constante indagação sobre a realidade última da vida.
A emergência do niilismo pode ser rastreada até o século XIX (PECORARO, 2007), destacando-se notavelmente nas obras de filósofos como Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer. Nietzsche, em particular, lançou luz sobre a problemática do niilismo ao proclamar a “morte de Deus” e questionar a validade dos sistemas morais tradicionais que dependiam da existência de um fundamento divino. Esse ato de “matar Deus” simboliza a perda de uma base objetiva para a moralidade, lançando a humanidade em um vácuo de significado. Segundo Cassiano (2018), o niilismo também pode ser interpretado como uma crítica de Nietzsche à modernidade e ao homem moderno, que era governado, principalmente na Europa, por uma “moral de rebanho”.
Em “O Anticristo”, Nietzsche diz: “Mas não se diz ‘nada’: diz-se ‘além’; ou ‘Deus’; ou ‘a verdadeira vida’; ou nirvana, salvação, bem-aventurança…” (2007, p. 14). Portanto, de acordo com ele, o Cristianismo seria uma espécie de Niilismo, na medida em que atribui um valor superior a algo como o paraíso ou a vida eterna, do que a esta vida, estando, desta maneira, negando-a.
O niilismo se desdobra em várias vertentes, entre elas o niilismo metafísico, que nega a existência de uma realidade objetiva; o niilismo moral, que refuta a validade intrínseca de qualquer sistema ético; e o niilismo existencial, que confronta a ausência de um propósito fundamental na vida humana. Essas manifestações convergem para a ideia central de que todas as crenças e estruturas de significado são, em última instância, destituídas de valor absoluto.
Nesse contexto, o niilismo não é apenas uma negação abstrata, mas uma provocação para a criação de significado individual. Diante do vazio deixado pela negação dos sistemas tradicionais, emerge a responsabilidade do indivíduo em forjar seu próprio sentido existencial. Essa liberdade, entretanto, é simultaneamente um fardo, pois requer uma confrontação direta com a incerteza e a ausência de fundamentos sólidos.
Assim, o niilismo não é simplesmente uma negação de tudo, mas uma convocação para a autenticidade e a criação de significado em um universo aparentemente desprovido de sentido intrínseco. É um desafio à reflexão constante, à busca por valores pessoais e à aceitação corajosa da contingência da existência. Em última análise, o niilismo propõe que, embora não haja verdades eternas ou valores inabaláveis, a vida pode ser preenchida com significado por meio da ação individual e da construção ativa de propósito.
Referências
CASSIANO, Jefferson. M. A Lógica do Niilismo: o sentido do valor do nada na filosofia de Nietzsche. Dissertatio, v. 48, p. 258-285, 2018. Disponível : em<https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/dissertatio/article/view/10374>. Acesso em: 25. nov. 2023.
NIETZSCHE, F. O Anticristo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 2007.
PECORARO, Rossano. Niilismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
