Artigo especial de Natal: A origem romana do Natal e seus significados nos dias atuais.

Todo ano é comemorado, no dia 25 de dezembro, o Natal, um feriado Cristão de origem romana, criado para celebrar o nascimento de Jesus de Nazaré, também conhecido como Jesus Cristo. O problema é que nunca foi encontrado nenhum documento histórico com o registro oficial do nascimento de Jesus (em hebraico, Joshua ou Yeshua). Para sanar esse problema, como conta, Auguste Hollard (1966), em sua publicação na Revista de História da Universidade de São Paulo (USP), no século III d. C., os cristãos passaram a comemorar a Natividade na data da Epifania de Dionisos.

A Epifania de Dionisos, era uma festa que celebrava a Epifania (primeira aparição) do deus Dionisos, entre os dias 5 e 6 de janeiro. Dionisos era um deus que se originou na Trácia, cultuado em todo o mundo grego, mas que tinha interesse tanto nos escravos e pobres como nos ricos. Ele era associado à renovação anual da vegetação e passa a ser o deus grego do vinho, principalmente, nas regiões em que a colheita é a uva. “Na qualidade de deus de uma estação do ano, ele morre com o declínio da vegetação para ressuscitar com o aumento da luz que fomenta a vida, isto é, com o solstício de inverno, fixado primitivamente a 5 de janeiro” (HOLLARD, 1966, p. 71).

Hollard continua explicando, que como uma manifestação, em virtude da comemoração de sua aparição, no dia 6 de janeiro, Dionisos fazia aparecer vinho nas águas de rios em algumas regiões, como na ilha de Andros. Analogamente, como conta Santo Epifânio, bispo de Salamina, a liturgia cristã identificou que o milagre da transmutação da água em vinho (conhecido como o milagre de Caná) de Cristo, também teria ocorrido entre os dias 5 e 6 de janeiro, fazendo com que, dessa forma, Cristo substituísse Dionisos. Segundo Hollard, foi nesse mesmo dia, 30 anos após o seu nascimento, que Jesus quis ser batizado por João Batista às margens do rio Jordão. A Bíblia menciona: “Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento o céu se abriu, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele.Então uma voz dos céus disse: ‘Este é o meu Filho amado, em quem me agrado’” (Mateus 3:16-17).

Assim sendo, a Igreja romana começou a celebrar o nascimento e o batismo de Jesus, no mesmo dia, no dia da Epifania de Dionisos. Foi só no século IV, que ela transfere o seu nascimento para o dia 25 de dezembro. “Na escolha de 25 de dezembro houve uma vez mais a substituição de uma festa pagã por uma festa cristã. A festividade pagã era a festa do Sol” (HOLLARD, 1966, p. 75). O culto ao sol em Roma, está correlacionado com o culto a Mitra, de origem iraniana. Mitra foi incorporado ao culto solar por influência dos caldeus e se tornou religião axial de Roma em 181 a. C. O Imperador Romano Lúcio Domício Aureliano, mandou construir um templo ao Sol invictus, em 25 de dezembro de 274, para celebrar o deus sol que toda manhã triunfa sobre a escuridão da noite.

Era também a 25 de dezembro que a Roma pagã celebrava o nascimento anual do Sol, porque segundo o calendário Juliano, a data de 25 de dezembro era considerada como o solstício de inverno, e portanto, como o momento do ano a partir do qual os dias começam a alongar-se e o Sol a brilhar com mais fulgor. Era uma das grandes festas do paganismo; soles e magníficos jogos eram promovidos pelo soberano em honra do Sol Invencível (HOLLARD, 1966, p. 75-76).

A primeira menção da celebração romana do aniversário de Jesus se dar no dia 25 de dezembro, remonta ao ano de 336, pelo calígrafo Furio Filocalo. Já naquela época era comemorado o nascimento de Jesus em 25 de dezembro, mas foi só entre 353 (HOLLARD, 1966) e 354 (QUEIRÓS, 2015), que o Papa Libério instituiu oficialmente em Roma a festa do Natal.

Por mais inusitada que seja a origem histórica do Natal, que remonta a celebrações pagãs, como o festival romano do Sol Invicto, o Natal, em vez de ser uma mera sobreposição de tradições, absorveu e transformou essas práticas antigas, incorporando-as em uma narrativa cristã, não importando para o seu fiel o dia do nascimento de Jesus, mas sim o fato de poder comemorar o evento da sua existência terrena. Uma ressalva deve ser feita em função dos Testemunhas de Jeová, uma denominação cristã que não comemora o natal por quatro razões: 1) a passagem do evangelho de Lucas (22:19-20), que afirma que Jesus mandou os cristãos comemorarem sua morte e não seu nascimento; 2) os apóstolos e os primeiros discípulos de Jesus não comemoravam o Natal; 3) não existem provas de que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, afinal a data de seu nascimento não foi registrada na Bíblia; e 4) os Testemunhas de Jeová acreditam que o Natal não é aprovado por Deus porque se origina de costumes e rituais pagãos (JW.ORG – SITE OFICIAL DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ, 2023).

Nos dias atuais, alguns elementos que envolvem o Natal são a árvore pinheiro enfeitada com luzes, esferas coloridas e estrelas; São Nicolau, o papai Noel (ROMA, 2020), um homem originário do Polo Norte, de barba branca vestido de vermelho, que entra pela chaminé das casas na madrugada do dia 24 de dezembro trazendo um saco cheio de presentes ou carvão se  a criança não se comportou; meias presas às lareiras; canções vitorianas e um jantar abastado de todo tipo de comidas e iguarias nacionais e importadas, típicas desta estação do ano. Há pensadores que propõem que a comemoração se desvirtuou de seu propósito original e se mercantilizou, se tornando uma data apenas para o consumismo exacerbado (CRUZ, 2019).

O Natal apresenta muitas nuances, sendo impossível esgotar aqui todos os seus significados. Mas é imprescindível mencionar, que o Natal, ao longo dos séculos, não apenas incorporou tradições antigas, mas também demonstrou uma notável capacidade de se adaptar a diferentes culturas, crenças e contextos históricos. Pode-se argumentar que o Natal é um fenômeno cultural em constante evolução, refletindo a resiliência da tradição em face de mudanças significativas.

À medida que o mundo se torna mais interconectado, o Natal transcende fronteiras culturais e religiosas. Diferentes regiões e comunidades incorporam elementos locais nas celebrações natalinas, transformando o Natal em uma festividade verdadeiramente global e diversificada, ora, o papai Noel que é vermelho no Brasil e nas Américas, é azul na Rússia. A visão convencional muitas vezes critica a comercialização excessiva do Natal. No entanto, podemos considerar que a adaptação do Natal ao consumismo moderno é um reflexo da natureza dinâmica da cultura contemporânea, livre de julgamentos morais, paradigmaticamente capitalista. O ato de presentear, por exemplo, evoluiu para além de seu significado original, tornando-se uma expressão cultural complexa.

Conclui-se, que uma visão inovadora pode questionar e desconstruir estereótipos associados ao Natal, promovendo uma reflexão crítica sobre as suas representações culturais. Isso pode incluir uma análise de como diferentes grupos interpretam e participam das festividades natalinas, ou como e porque não participam, como é o caso dos Testemunhas de Jeová. Todavia, este artigo buscou destacar a capacidade do Natal de se adaptar, evoluir e refletir as complexidades da sociedade ao longo do tempo, proporcionando uma compreensão mais ampla dessa festividade icônica.

Referências

CRUZ, M. B. DA. O desencantamento do Natal. Gaudium Sciendi, n. 5, p. 78-90, 2019. Disponível em: <https://revistas.ucp.pt/index.php/gaudiumsciendi/article/view/2627&gt;. Acesso em: 26. dez. 2023.

HOLLARD, A. As origens das comemorações do Natal. Revista de História[S. l.], v. 32, n. 65, p. 69-84, 1966. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.rh.1966.124023. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/124023&gt;. Acesso em: 26 dez. 2023.

JW.ORG/ SITE OFICIAL DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Por que as Testemunhas de Jeová não comemoram o Natal? Pensilvania, 2023. Disponível em: <https://www.jw.org/pt/testemunhas-de-jeova/perguntas-frequentes/por-que-nao-comemoram-natal/&gt;. Acesso em: 26. dez. 2023.

QUEIRÓS, N. D. DA S. Sol Iustitiæ: a celebração do Natal numa perspectiva genética. Humanística e Teologia, v. 36, n. 2, p. 113-142, 2015. Disponível em: <https://revistas.ucp.pt/index.php/humanisticaeteologia/article/view/9284/9150&gt;. Acesso em: 26. dez. 2023.

ROMA, A. S. V. Natal Símbolo de Idolatria. [S. I.], Clube de Autores, 2020.

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