Religiões de Matriz Africana: sincretismo religioso dentro e fora do Brasil.

As religiões de matriz africana englobam um vasto conjunto de sistemas de crenças e práticas espirituais que têm suas raízes nas diversas culturas e tradições dos povos africanos. Essas religiões, muitas vezes chamadas de religiões tradicionais africanas, abrangem uma rica tapeçaria de rituais, mitos, simbolismos e interações com o mundo espiritual. Entre as mais proeminentes estão o Candomblé, a Umbanda, o Vodu e o Ifá, cada uma com suas próprias nuances e variações, dependendo da região e da comunidade em que são praticadas.

O Candomblé, por exemplo, é uma religião afro-brasileira que tem suas raízes na cultura iorubá da África Ocidental, especialmente na região que é hoje o território da Nigéria e do Benin. “Assim como no Vodu, os adeptos do Candomblé acreditam num ser superior, um deus supremo, geralmente chamado de Ôlôrún (nagô) ou Zaniapombo (Angola, Congo, caboclo)” (HANDERSON, 2010, p. 143). Abaixo da divindade, está uma ampla gama de seres, conhecidos como Orixás (“espíritos ancestrais”), que representam diferentes aspectos da natureza e da vida humana. Cada Orixá possui características únicas e é associado a elementos específicos, como cores, animais, e elementos da natureza. Os rituais do Candomblé envolvem danças, cânticos, oferendas e invocações aos Orixás, com o objetivo de estabelecer uma conexão direta com o divino e buscar orientação espiritual e proteção.

Já a Umbanda, também uma religião brasileira, é uma síntese de influências africanas, indígenas e cristãs. Originada no início do século XX, a Umbanda combina elementos do Candomblé, do Espiritismo Kardecista e de tradições indígenas brasileiras. Os praticantes da Umbanda acreditam na existência de um Deus único e supremo, além de espíritos ancestrais, guias espirituais e entidades divinas que podem interagir com o mundo físico para ajudar e orientar os seres humanos. Os rituais umbandistas incluem sessões mediúnicas, onde os médiuns estabelecem comunicação com os espíritos por meio de incorporação, e cerimônias de oferendas e invocações para honrar os guias espirituais e promover cura, proteção e evolução espiritual. Seu fundador, o “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, estabeleceu que as sessões sempre devem ocorrer das 20:00 às 22:00 horas, os participantes devem estar uniformizados de branco e os atendimentos devem ser gratuitos (BARBOSA, 2014). No Brasil, além da Umbanda e do Candomblé, houve o advento do Tambor-de-mina maranhense, o Xangô pernambucano e o Batuque gaúcho.

O Vodu, por sua vez, é uma religião originária da região do Golfo do Benin, na África Ocidental, que foi levada para o continente norte-americano pelos africanos escravizados durante o tráfico transatlântico de escravos. O Vodu é caracterizado pela crença na existência de um Deus supremo, chamado Bondye ou Mawu, e uma série de espíritos intermediários, conhecidos como loa ou lwa, que atuam como mensageiros entre os seres humanos e o divino. Os praticantes do Vodu realizam rituais complexos, que incluem música, dança, invocações, oferendas e cerimônias de possessão, onde os devotos se tornam veículos para os espíritos se manifestarem e interagirem com o mundo físico. O lugar onde se fazem as cerimônias é o “péristyle” (terreiro). Na América, O Vodu é reconhecido pelo Estado do Haiti como religião desde 1987, como religião oficial desde 2003 e é praticado até os dias de hoje (HANDERSON, 2010).

Por fim, o Ifá, também conhecido como Oráculo de Ifá ou Ifismo, é um sistema de adivinhação e sabedoria espiritual praticado principalmente entre os povos iorubás da Nigéria, Benin e Togo. O Ifá é centrado na figura do oráculo, um sacerdote especializado chamado babalawo, que utiliza um conjunto de símbolos e versos sagrados, conhecidos como odu, para interpretar as mensagens divinas e oferecer orientação aos consultantes sobre questões de vida, saúde, família, trabalho e espiritualidade. Além da adivinhação, o Ifá também engloba um sistema ético e moral baseado em princípios como respeito, responsabilidade, equilíbrio e justiça. “O oponifá (bandeja ou tabuleiro) e o opelê (corrente metálica dupla com quatro elementos incrustrados em cada uma das partes) são objetos rituais fundamentais do sistema divinatório Ifá” (LOPES, 2020, p. 10).

Em suma, as religiões de matriz africana são sistemas espirituais profundamente enraizados nas tradições e na cosmovisão dos povos africanos, que valorizam a conexão com a natureza, o respeito aos ancestrais, a busca pelo equilíbrio e a interação entre o mundo físico e o mundo espiritual. Essas religiões têm desempenhado um papel fundamental na preservação da identidade cultural e na resistência contra a opressão ao longo da história, e continuam a ser fontes de inspiração, cura e empoderamento para milhões de pessoas em todo o mundo.

Referências

BARBOSA, A. J. O livro essencial de Umbanda. São Paulo: Universo dos Livros, 2014.

HANDERSON, J. Vodu no Haiti – Candomblé no Brasil: identidades culturais e sistemas religiosos como concepções de mundo Afro-Latino-Americano. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Instituto de Sociologia e Política da Universidade Federal de Pelotas. Pelotas, 2010. Disponível em: <https://guaiaca.ufpel.edu.br/bitstream/handle/123456789/1588/Joseph_Handerson_Dissertacao.pdf?sequence=1&isAllowed=y&gt;. Acesso em: 28. fev. 2024.

LOPES, N. Ifá Lucumí: o resgate da tradição. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2020.

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