A Vedanta, por vezes chamada Uttara Mimamsa, é uma das seis darshanas (escolas) da filosofia hindu, destacando-se como uma das mais influentes e profundas tradições filosóficas da Índia. Originando-se dos ensinamentos contidos nos Upanishads, a parte final dos Vedas, a Vedanta abrange uma vasta gama de interpretações e subescolas, todas focadas na compreensão da natureza última da realidade, do eu e da relação entre ambos.
A palavra “Vedanta” deriva do sânscrito, significando literalmente “o fim dos Vedas” ou “a parte final do conhecimento”. Os Vedas são os textos sagrados mais antigos da tradição hindu, e os Upanishads são os textos fundamentais da Vedanta. Estes textos filosóficos, compostos entre 800 e 200 a.C., exploram questões metafísicas profundas e questionam as bases da realidade e da existência. Eles totalizam quatro livros, Rigveda, Yajurveda, Samaveda e Atarvaveda (CARVALHO, 2017), divididos em duas partes, a primeira, considerada litúrgica ou ritualística e a segunda, reconhecida como filosófica.
Além dos Upanishads, a tríade de textos fundamentais da Vedanta incluem o Brahma Sutra ou Vedanta Sutra, escrito por Badarayana ou Vyasa, que sistematiza os ensinamentos dos Upanishads, e o Bhagavad Gita (SILVESTRE, 2014; PINHEIRO, 2017), um diálogo filosófico entre Krishna e Arjuna, que aborda aspectos éticos e metafísicos da vida e do dharma.
Conceitos Centrais
Os conceitos centrais da Vedanta giram em torno de quatro noções principais: Brahman, Atman, Maya e Moksha.
- Brahman: Refere-se à realidade suprema e absoluta, a base de toda a existência. É descrito como infinito, eterno, imutável e não-dual.
- Atman: É o eu individual ou a alma. Na perspectiva da Vedanta, o Atman é idêntico a Brahman. O autoconhecimento do Atman leva à compreensão de Brahman.
- Maya: Representa a ilusão ou a força que cria a aparente dualidade e multiplicidade no mundo. Maya é o véu que impede a percepção da unidade essencial de Brahman.
- Moksha: A liberação do ciclo de nascimento e morte (samsara), alcançada pela realização da verdadeira natureza do Atman e sua relação com Brahman.
Escolas da Vedanta
A Vedanta se ramificou em diversas escolas de pensamento, cada uma oferecendo uma interpretação distinta dos textos e conceitos fundamentais. As três principais escolas são:
- Advaita Vedanta: Fundada por Adi Shankaracharya (788-820 d.C.), a Advaita Vedanta é uma escola não-dualista que sustenta que Brahman é a única realidade e que o mundo fenomênico é uma manifestação de Maya. Segundo Shankara, a verdadeira realização espiritual é a compreensão da unidade entre Atman e Brahman.
- Vishishtadvaita Vedanta: Propagada por Ramanuja (1017-1137 d.C.), esta escola propõe uma não-dualidade qualificada. Embora reconheça a unidade fundamental de Brahman, Ramanuja argumenta que as almas individuais e o mundo são reais e distintos, mas dependem de Brahman como sua base e suporte.
- Dvaita Vedanta: Fundada por Madhva (1238-1317 d.C.), o Dvaita Vedanta defende uma dualidade radical entre o Atman e Brahman. Madhva sustenta que as almas individuais, o mundo e Brahman são eternamente distintos, e que a devoção e serviço a um Deus pessoal, Vishnu, são essenciais para a liberação (SARMA, 2016).
Práticas ou Caminhos Espirituais
A Vedanta abrange várias práticas espirituais, incluindo:
- Jnana Yoga: O caminho do conhecimento e discriminação, essencial para a realização do Advaita.
- Bhakti Yoga: O caminho da devoção e amor por Deus, central para Vishishtadvaita e Dvaita.
- Karma Yoga: O caminho da ação desinteressada, como ensinado no Bhagavad Gita.
- Raja Yoga: O caminho da meditação e controle mental, embora mais associado com o Yoga de Patanjali, também é relevante para a Vedanta.
A Vedanta exerceu uma influência profunda não apenas no pensamento filosófico hindu, mas também nas práticas religiosas e culturais da Índia. Seus conceitos e ensinamentos foram integrados em diversas tradições devocionais (bhakti) e práticas de ioga. Na era moderna, a Vedanta ganhou notoriedade global através de figuras como Swami Vivekananda, que apresentou a filosofia Vedanta ao Ocidente no final do século XIX, enfatizando sua compatibilidade com a ciência moderna e sua relevância para os desafios espirituais e éticos contemporâneos. Paramahansa Yogananda, Ramana Maharshi e Ramakrishna também foram três exímios iogues e expoentes da Vedanta, fundando instituições espirituais que se destacam até os dias de hoje.
Com sua profundidade e diversidade, a Vedanta oferece uma abordagem abrangente à compreensão da realidade e da existência humana. As várias escolas de Vedanta, desde o não-dualismo de Advaita até o dualismo de Dvaita, proporcionam múltiplas perspectivas sobre a relação entre o indivíduo e o absoluto, “[…] e é com base no ensinamento a respeito da relação entre o Absoluto (Brahman ou consciência) e o Eu (atma) que o ethos do estudante de Vedanta é construído” (BASTOS, 2018, p. 222). Esta tradição filosófica não apenas enriqueceu a espiritualidade indiana, mas também influenciou significativamente o pensamento global.
Em um mundo em constante mudança, a Vedanta oferece uma visão de unidade e transcendência que pode servir como um farol para aqueles que buscam entender a natureza última da realidade e alcançar a liberação espiritual. Sua capacidade de integrar a filosofia profunda com práticas espirituais aplicáveis continua a atrair e inspirar buscadores em todo o mundo, reafirmando sua posição como uma das tradições filosóficas mais ricas e influentes da humanidade.
Referências
BASTOS, C. Em busca do sentido da vida: a perspectiva de estudantes de Vedanta sobre “uma vida de yoga”. Religião & Sociedade, v. 38, n. 3, p. 218–238, 2018. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rs/a/X4hkd9LtQtNxzGmDZHYfpbN/#>. Acesso em: 22. mai. 2024.
CARVALHO, M. L. de. Tradições religiosas, filosofias e história: uma introdução ao Hinduísmo por Hillary Rodrigues. Sacrilegens, Juiz de Fora, v. 14, n. 2, p. 99-107, 2017. Disponível em: <https://periodicos.ufjf.br/index.php/sacrilegens/article/download/26981/18662/106509>. Acesso em: 22. mai. 2024.
PINHEIRO, S. L. O Silêncio e o Ser na Filosofia Vedanta: um diálogo oriente-ocidente para pensar a relação humano-natureza em Educação Ambiental. Dissertação (Mestrado em Educação Ambiental) – Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, 2017.
SARMA, D. An introduction to Mâdhva Vedânta. Nova Iorque: Routledge, 2016.
SILVESTRE, R. Sobre a teologia do ser perfeito nas tradições não-abraâmicas: o Vedanta como estudo de caso. Cultura Oriental, v. 1, n. 1, p. 41-48, 2014. Disponível em: <https://philpapers.org/rec/SILSAT-6>. Acesso em: 22. mai. 2024.
