O Utilitarismo é uma teoria ética que se destaca por sua simplicidade e, ao mesmo tempo, pela profundidade de suas implicações. Fundamentada na ideia de que o valor moral de uma ação deve ser julgado pelo seu resultado final, o Utilitarismo propõe que as ações são moralmente corretas se, e somente se, elas promovem a máxima felicidade ou bem-estar para o maior número de pessoas. Esta teoria, que emergiu como uma resposta às limitações do deontologismo kantiano e das teorias morais anteriores, possui raízes profundas na tradição filosófica ocidental e continua a influenciar debates éticos contemporâneos.
Origens e Desenvolvimento Histórico
O Utilitarismo, em sua forma moderna, é geralmente atribuído aos filósofos britânicos Jeremy Bentham (1748–1832) e John Stuart Mill (1806–1873). Bentham é frequentemente considerado o fundador da teoria, tendo formulado sua versão inicial do Utilitarismo no final do século XVIII. Sua obra seminal, An Introduction to the Principles of Morals and Legislation (1789), estabelece a máxima utilitarista: “o maior bem para o maior número” (BENTHAM, 1789/1907, p. 196). Bentham introduz o conceito de “felicidade” como a experiência de prazer e a ausência de dor, e defende que as leis e instituições sociais devem ser avaliadas com base em sua capacidade de promover a felicidade geral.
John Stuart Mill, aluno de Bentham, desenvolveu e refinou o Utilitarismo, respondendo a várias críticas que a teoria de Bentham havia enfrentado. Em sua obra Utilitarianism (1861), Mill introduz uma distinção crucial entre prazeres “superiores” e “inferiores”, sugerindo que os prazeres intelectuais e morais têm maior valor do que os prazeres puramente físicos (MILL, 1861/1998). Essa distinção responde à crítica de que o Utilitarismo de Bentham era uma “filosofia de porcos”, por reduzir a moralidade ao simples cálculo de prazeres.
Fundamentos Teóricos e Princípios
O Utilitarismo é frequentemente dividido em dois ramos principais: o Utilitarismo do Ato e o Utilitarismo da Regra. O Utilitarismo do Ato defende que cada ação individual deve ser avaliada com base em sua capacidade de maximizar a felicidade. Por outro lado, o Utilitarismo da Regra propõe que as regras gerais de conduta, que historicamente demonstraram promover o bem-estar, devem ser seguidas, mesmo que, em alguns casos específicos, a adesão a essas regras possa não maximizar a felicidade no curto prazo. Essa divisão ilustra as complexidades inerentes à aplicação prática do utilitarismo.
Outro aspecto central do Utilitarismo é seu caráter consequencialista. Diferente de outras teorias éticas, como o deontologismo, que se concentra na moralidade intrínseca das ações ou das intenções por trás delas, o Utilitarismo julga as ações exclusivamente pelos seus resultados. A “soma de utilidade”, ou o balanço entre prazer e dor resultante de uma ação, torna-se a métrica fundamental para determinar a correção moral.
Críticas e Defesas
Apesar de sua influência, o Utilitarismo enfrentou críticas substanciais ao longo de sua história. Uma das principais críticas é a de que a teoria pode justificar ações moralmente repugnantes, desde que elas resultem na maximização da felicidade geral. Por exemplo, a tortura de um indivíduo inocente poderia ser considerada moralmente aceitável se resultasse em um bem maior para a maioria. Essa objeção levanta questões sobre a justiça e os direitos individuais, que o Utilitarismo clássico de Bentham e Mill pode não tratar adequadamente.
Além disso, a exigência de calcular as consequências de cada ação pode ser vista como impraticável, dada a complexidade e imprevisibilidade das interações humanas. Para contornar essa dificuldade, defensores contemporâneos do Utilitarismo, como Peter Singer, argumentam que a teoria deve ser vista como um guia prático, em vez de um sistema rígido de cálculo moral (SINGER, 1980).
Impacto e Relevância Contemporânea
O Utilitarismo continua a desempenhar um papel central em debates éticos e políticos contemporâneos. Suas ideias influenciam políticas públicas, como as discussões sobre a distribuição de recursos de saúde, onde o objetivo é maximizar o bem-estar da população. Em bioética, o Utilitarismo é frequentemente invocado em questões como eutanásia e aborto, onde o bem-estar e o sofrimento das partes envolvidas são cuidadosamente ponderados.
Adicionalmente, o Utilitarismo tem sido uma força motriz na defesa dos direitos dos animais, com filósofos como Singer argumentando que o bem-estar dos animais deve ser incluído na soma utilitária, já que eles também são capazes de sentir prazer e dor (SINGER, 1980).
Conclusão
O Utilitarismo, com sua ênfase na maximização do bem-estar coletivo, oferece uma abordagem pragmática e consequencialista para a moralidade. Embora tenha suas limitações e críticas, continua a ser uma das teorias éticas mais influentes e debatidas. Sua capacidade de se adaptar e responder às complexidades do mundo moderno assegura sua relevância contínua no estudo da ética ao redor do mundo.
Referências
BENTHAM, J. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Oxford: Clarendon Press, 1789/1907.
MILL, J. S. Utilitarianism. Roger Crisp (ed.). Oxford: Oxford University Press, 1861/1998.
SINGER, P. Practical Ethics. Cambridge: Cambridge University Press, 1980.
