O ceticismo filosófico é uma tradição de pensamento que questiona a possibilidade de se alcançar conhecimento ou certeza em diversas áreas da experiência humana. Suas raízes estão presentes desde a filosofia grega antiga, particularmente nas obras de Pirro de Élis (c. 360-270 a.C.) e Sexto Empírico (c. 160-210 d.C.), que são os principais expoentes da tradição cética. No entanto, o ceticismo não é uma doutrina monolítica, mas um conjunto diversificado de posições que variam em grau e alcance, indo desde dúvidas localizadas sobre certas áreas de conhecimento até uma descrença radical na possibilidade de conhecimento verdadeiro em qualquer área.
1. As Origens do Ceticismo
O ceticismo tem suas origens no período helenístico, um tempo de intenso desenvolvimento filosófico após a morte de Alexandre, o Grande. Foi nesse contexto que Pirro de Élis, inspirado por suas viagens ao Oriente, desenvolveu uma filosofia que se opunha tanto ao dogmatismo das escolas filosóficas como o estoicismo quanto ao empirismo dos epicuristas. Pirro sustentava que, diante da diversidade de opiniões filosóficas, a única atitude racional seria suspender o juízo (epoché), pois a verdade, se é que existe, estaria além da nossa capacidade de apreensão. Esta suspensão do juízo, segundo Pirro, leva à ataraxia (tranquilidade da alma), uma vez que a busca incessante por certezas seria fonte de inquietação.
2. Ceticismo Acadêmico e Pirronismo
Embora Pirro seja considerado o pai do ceticismo, o movimento cético se desenvolveu de forma mais sistemática na chamada Academia Cética, associada à Escola de Platão. Sob a liderança de Arcesilau (c. 316-241 a.C.) e Carnéades (c. 214-129 a.C.), a Academia Platônica adotou uma postura cética, divergindo significativamente do dogmatismo de seu fundador. Os céticos acadêmicos propunham que todo conhecimento estava sujeito a dúvida e que as percepções sensoriais eram falíveis. No entanto, Carnéades, ao contrário de Pirro, não defendia a suspensão total do juízo, mas sim a adoção de crenças provisórias baseadas em probabilidade, uma forma de plausibilismo cético.
O ceticismo pirrônico, por sua vez, foi sistematizado por Sexto Empírico, que o diferenciava do ceticismo acadêmico ao enfatizar a suspensão total do juízo em todos os assuntos. Para Sexto, qualquer tentativa de formular proposições dogmáticas, seja afirmativa ou negativa, conduz ao erro, pois todas as proposições são igualmente passíveis de refutação (HUGUENIN; BRITO, 2019). O pirronismo, assim, rejeitava qualquer pretensão ao conhecimento definitivo, mantendo-se em uma postura de total incerteza. Sua metodologia cética, baseada em antinomias, ou seja, na confrontação de argumentos contraditórios, procurava expor a falibilidade de todas as reivindicações de conhecimento.
3. Ceticismo Moderno: Descartes e Hume
Com a Renascença e o advento da filosofia moderna, o ceticismo ressurgiu como uma força central nas discussões epistemológicas. René Descartes (1596-1650), considerado o fundador do pensamento moderno, iniciou sua obra magna, Meditações Metafísicas, com um exercício radical de dúvida cética. Descartes introduziu o conceito de dúvida metódica, que consistia em questionar sistematicamente todas as crenças até encontrar uma certeza indubitável. Seu ponto de partida foi a suspeita sobre a veracidade das percepções sensoriais, que, segundo ele, poderiam ser enganosas. O auge de seu ceticismo metódico culmina na famosa formulação “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo), que ele considerou a verdade fundamental e indubitável a partir da qual todo conhecimento poderia ser reconstruído (DESCARTES, 1641/1999).
David Hume (1711-1776), por outro lado, adotou uma postura cética em relação à causalidade e à indução. Em sua Investigação Sobre o Entendimento Humano (1748/2004), Hume argumenta que as noções de causa e efeito, embora centrais para o entendimento humano, não têm fundamento racional. Segundo ele, nossa crença na causalidade decorre apenas da repetição de eventos similares, mas não há garantia lógica de que o futuro será semelhante ao passado. Essa posição levanta uma séria dúvida sobre a possibilidade de justificar racionalmente o conhecimento científico, que se baseia no princípio da indução.
4. Ceticismo Contemporâneo: Desafios à Ciência e à Epistemologia
No pensamento contemporâneo, o ceticismo continua a exercer uma influência significativa, especialmente nas discussões epistemológicas. Filósofos como Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e Saul Kripke (1940-) exploraram a ideia de que a linguagem e o significado são inerentemente incertos, o que levanta questões sobre a possibilidade de conhecimento objetivo. Wittgenstein, em seu Investigações Filosóficas, questionou a noção de regras objetivas de uso da linguagem, sugerindo que as regras só têm sentido dentro de práticas comunitárias, o que poderia levar a um relativismo epistemológico (WITTGENSTEIN, 1953/1999).
Outro desafio cético contemporâneo vem do chamado problema do ceticismo externo, que questiona a nossa capacidade de saber se o mundo externo existe de fato, ou se nossas experiências são meramente ilusórias. Este problema ganhou notoriedade na filosofia da mente e epistemologia com exemplos como o argumento do cérebro numa cuba, onde se postula a possibilidade de que nossas percepções sejam controladas por uma máquina, um tema que foi popularizado em obras de ficção como Matrix.
5. Conclusão: O Legado do Ceticismo
O ceticismo filosófico, em suas diversas formas, continua a ser uma força crítica na filosofia. Desde Pirro e Sexto Empírico até os debates contemporâneos, o ceticismo desafia as bases do conhecimento humano e questiona nossas convicções mais arraigadas. Embora muitos vejam no ceticismo uma ameaça ao progresso científico e filosófico, outros o consideram um antídoto contra o dogmatismo e uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento de uma epistemologia mais robusta e crítica.
Referências
DESCARTES, R. Meditações sobre Filosofia Primeira. Tradução Fausto Castilho. Campinas: CEMDECON, UNICAMP, 1641/1999.
HUGUENIN, R.; BRITO, R. P. DE. Sexto Empírico e as diferenças entre o Pirronismo e a filosofia dos Acadêmicos: Tradução de Esboços Pirrônicos 1.220-235. Revista Archai, n. 27, p. e02711, 2019. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/archai/a/nwVwCc6p7wd8DcBRbkRffkm/#>. Acesso em: 17. set. 2024.
HUME, D. Investigações Sobre o Entendimento Humano e Sobre os Princípios da Moral. Tradução José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 1748/2004.
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Tradução José Carlos Bruni. São Paulo: Nova Cultural, 1953/1999.
