
A Ordem dos Cavaleiros Templários foi uma das mais influentes e enigmáticas ordens militares cristãs da Idade Média. Fundada no início do século XII, durante o contexto das Cruzadas, a ordem teve um papel central na defesa e manutenção dos territórios cristãos na Terra Santa, além de desempenhar funções econômicas e políticas de grande relevância na Europa. Seu legado, permeado por mistérios e mitos, continua a fascinar historiadores, teólogos e estudiosos até os dias atuais. Este texto aborda sua fundação, estrutura, atividades militares, papel econômico e sua dissolução.
Fundação e Missão Inicial
A Ordem dos Cavaleiros Templários, oficialmente chamada Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, foi estabelecida em 1118 por Hugues de Payens e outros oito cavaleiros franceses. Sua criação foi motivada pela necessidade de proteger os peregrinos cristãos que viajavam à Terra Santa (MONTEIRO, 2011), em especial após a captura de Jerusalém na Primeira Cruzada (1096-1099). A segurança nas estradas, repletas de saqueadores, era precária, e os cavaleiros assumiram a missão de garantir a proteção dos fiéis.
A ordem recebeu o apoio do rei de Jerusalém, Balduíno II, que lhes concedeu a ocupação de parte do Templo de Salomão, o que conferiu aos cavaleiros o nome pelo qual se tornariam conhecidos. Em 1129, o Concílio de Troyes oficializou a ordem, garantindo-lhes o reconhecimento e o apoio da Igreja Católica. A espiritualidade templária baseava-se nos ideais monásticos e militares, com um compromisso de pobreza, castidade e obediência, combinados com a defesa armada da fé cristã (MORETTI JUNIOR; DOS REIS, 2011).
Estrutura e Organização
A Ordem dos Templários possuía uma rígida hierarquia interna, inspirada em modelos monásticos. O Grão-Mestre, eleito de forma vitalícia, era a autoridade máxima. Abaixo dele, estavam os comandantes regionais, chamados Comendadores, responsáveis pela administração das posses e das tropas. A ordem incluía cavaleiros, que eram nobres com treinamento militar, além de sargentos, escudeiros e capelães, que tinham funções auxiliares e religiosas. A respeito deles, São Bernardo diz: “são verdadeiros monges uma vez que levam uma vida austera, sóbria e pura (…) mas eles são também milites, soldados, cavaleiros” (FLORI, 2005, p. 179).
A estrutura dos Templários se expandiu rapidamente. Embora sua principal missão fosse a defesa da Terra Santa, a ordem estabeleceu Comendas (sucursais) em toda a Europa, com vastas propriedades e extensas redes comerciais e financeiras. A disciplina interna era rígida, e os membros deviam seguir um código de conduta baseado em normas monásticas, o que incluía práticas como o celibato e o voto de pobreza.
Participação nas Cruzadas
A contribuição militar dos Templários nas Cruzadas foi significativa. Eles foram fundamentais em várias batalhas importantes, incluindo a defesa de Jerusalém e de fortalezas cristãs no Oriente Próximo, como a de Acre. Os cavaleiros templários eram conhecidos por sua bravura e disciplina no campo de batalha, muitas vezes lutando até a morte para defender as posições cristãs.
Além disso, os Templários criaram um extenso sistema de fortificações ao longo das rotas de peregrinação e nos territórios conquistados. Esses castelos eram essenciais para a manutenção do domínio cristão na Terra Santa. Um dos mais famosos foi o Castelo de Safed, uma das maiores fortalezas templárias na região.
Atividades Econômicas e o Papel de Banqueiros
Além de suas atividades militares, os Templários desempenharam um papel econômico crucial na Idade Média. Suas vastas propriedades agrícolas e o controle de rotas comerciais renderam à ordem enormes riquezas. A organização desenvolveu um sistema bancário primitivo, possivelmente o primeiro banco do mundo, oferecendo segurança para os peregrinos e para os nobres europeus. Eles permitiam que bens fossem depositados em uma Comenda e retirados em outra, proporcionando uma forma segura de transporte de riquezas em uma época de instabilidade.
Essa função bancária, aliada à boa administração de seus recursos, tornou os Templários não apenas influentes militarmente, mas também poderosos financeiramente. Reis e nobres frequentemente recorriam à ordem para obter empréstimos ou financiamento para expedições militares e construções, o que elevou o prestígio da ordem, mas também atraiu inveja e desconfiança.
Declínio e Dissolução
O declínio da Ordem dos Cavaleiros Templários começou com a perda dos últimos redutos cristãos na Terra Santa, culminando com a queda de Acre em 1291. Sem uma missão clara, a ordem enfrentou crescente oposição na Europa. A acumulação de riqueza e poder pelos Templários também gerou tensões com monarcas europeus, especialmente o rei da França, Felipe IV, também conhecido como Felipe, o Belo.
Felipe IV, enfrentando uma crise financeira devido a uma série de campanhas militares contra a Inglaterra e devendo grandes somas à ordem, orquestrou sua queda. Em 1307, “no dia 13 de outubro, foi expedida uma ordem de prisão de todos os templários do templo de Paris e todas as demais casas da ordem em território francês. Essa decisão seria acompanhada por Clemente V, que ordenaria, em novembro, a captura de todos os templários presentes na Europa” (DOS REIS, 2023, p. 188). A ordem de prisão foi emitida sob acusações de heresia, sodomia e outros crimes, em um processo altamente politizado e fraudulento. Sob tortura, muitos cavaleiros confessaram crimes que provavelmente não cometeram, e o papa Clemente V, sob pressão de Felipe, dissolveu oficialmente a ordem em 1312 no Concílio de Viena.
O último Grão-Mestre, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira em 1314, marcando simbolicamente o fim da ordem. Seus bens foram em grande parte confiscados pela coroa francesa, embora parte das propriedades templárias tenha sido transferida para a Ordem de Malta.
Legado e Mitologia
Apesar de sua extinção oficial, o legado dos Templários perdurou, cercado de mistério e lendas. O caráter secreto de suas reuniões, sua riqueza e sua repentina queda alimentaram teorias conspiratórias ao longo dos séculos. Em especial, a ideia de que os Templários possuíam relíquias sagradas, como o Santo Graal, continua a ser tema de inúmeras especulações e obras literárias.
Historicamente, os Templários são vistos como precursores de práticas bancárias modernas e exemplos de uma ordem militar que combinou religião, guerra e economia de maneira única na história medieval. A combinação de seu fervor religioso e habilidades organizacionais os destaca no contexto das Cruzadas e da sociedade medieval.
Conclusão
A Ordem dos Cavaleiros Templários foi uma das instituições mais poderosas e influentes da Idade Média. Sua missão de proteger os peregrinos e defender a Terra Santa, combinada com seu sucesso econômico, transformou-a em um pilar das Cruzadas e do mundo medieval cristão. Embora tenha sido dissolvida em meio a intrigas políticas, sua influência e legado continuam a inspirar debates e fascinação.
Referências
DOS REIS, A. B. Da Perseguição dos Cavaleiros Templários à Terra de Santa Cruz: o início de um império global sob a influência da Ordem de Cristo. Revista História em Curso, Belo Horizonte, v. 5, n. 7, p. 183-200, 2023. Disponível em: <https://periodicos.pucminas.br/index.php/historiaemcurso/article/view/30999>. Acesso em: 16. out. 2024.
FLORI, J. A cavalaria: a origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005.
MONTEIRO, J. G. A Regra do Templo ou o Esplendor da Arte Militar Medieval. Revista de História da Sociedade e da Cultura, Coimbra, v. 11, p. 9-38, 2011.
MORETTI JUNIOR, A. J.; DOS REIS, J. E. A Estruturação do Poder na Ordem Militar dos Cavaleiros Templários. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 5., 2011, Maringá. Anais, Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2011, p. 2491-2501. Disponível em: <http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/68.pdf>. Acesso em: 16. out. 2024.
