Maçonaria: a ordem dos construtores medievais

Introdução

A Maçonaria é uma organização secular e fraternal, cuja estrutura e ideais são frequentemente envoltos em um véu de mistério. Fundada sobre valores de fraternidade, liberdade e igualdade, a Maçonaria influenciou movimentos sociais e políticos ao longo dos séculos, especialmente a partir da Era Moderna. Suas raízes remontam aos ofícios medievais de pedreiros, mas, ao longo dos séculos, evoluiu para uma organização focada no desenvolvimento moral e ético de seus membros, tornando-se um fenômeno global com diversas ramificações.

Origens Históricas da Maçonaria

A origem exata da Maçonaria é difícil de determinar, devido à falta de documentos históricos específicos e à natureza de sigilo da organização. No entanto, estudiosos traçam seu desenvolvimento inicial aos guildas de pedreiros da Europa Medieval. Estes trabalhadores eram responsáveis por construir catedrais e edifícios religiosos, utilizando técnicas e conhecimentos avançados para a época. A “Maçonaria Operativa” referia-se a essas guildas de ofício, que incluíam segredos de construção passados de geração em geração. Com o tempo, especialmente no século XVII, a Maçonaria começou a mudar seu foco da prática de construção para a filosofia e moralidade, transição que deu origem à “Maçonaria Especulativa”. Esse período viu a entrada de membros que não eram pedreiros, mas interessados em princípios filosóficos e humanitários.

A fundação oficial da Maçonaria moderna é geralmente atribuída ao ano de 1717, com a criação da Grande Loja de Londres (BARATA, 1994), que consolidou várias lojas existentes sob uma única autoridade organizacional. Esse evento marca o início do que hoje é conhecido como Maçonaria Especulativa, cujas práticas focam na filosofia moral e na construção simbólica do “templo interior” de cada indivíduo.

Princípios e Estrutura da Maçonaria

Ao contrário do que muitos acreditam, a Maçonaria não realiza quaisquer rituais demoníacos, tão pouco é satanista. Essa visão preconceituosa e supersticiosa foi disseminada pela Igreja cristã e por seus fiéis na tentativa de minar a reputação da Maçonaria. Ao contrário, para o candidato ser aceito como maçom, ele deve crer em um Deus positivo, chamado pela Maçonaria de Grande Arquiteto do Universo ou Supremo Arquiteto do Universo (SOUZA, 2019).

A Maçonaria é estruturada em três graus simbólicos principais: “Aprendiz, Companheiro e Mestre” (MELKISEDCK, 2002, p.40), que representam estágios de desenvolvimento moral e pessoal. Cada grau apresenta ao iniciado novos ensinamentos sobre virtude, moralidade e ética. Além dos graus simbólicos, diversas vertentes da Maçonaria, como o Rito Escocês e o Rito de York, oferecem graus adicionais com temas mais profundos de filosofia, ética e teologia.

A estrutura interna da Maçonaria é baseada na autonomia das Lojas Maçônicas, que são pequenas unidades organizacionais onde os membros, chamados maçons, se reúnem regularmente para estudar e discutir questões filosóficas e realizar rituais simbólicos. Cada Loja é autônoma e subordinada a uma Grande Loja, a autoridade máxima em sua jurisdição. O lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mais tarde popularizado pelos ideais da Revolução Francesa, ressoa fortemente na Maçonaria, que valoriza a liberdade de pensamento, a equidade entre os membros e a fraternidade universal. Esse lema é inclusive encontrado no Artigo 1º da Constituição da Loja Maçônica Grande Oriente do Brasil (VADE MECUM MAÇONICO, 2015).

Simbologia e Rituais Maçônicos

A Maçonaria é notoriamente rica em símbolos e rituais, cada um carregado de significado esotérico. Talvez dois dos símbolos mais reconhecidos da organização, sejam o compasso e o esquadro, que remetem respectivamente à sabedoria e à prudência (VEIGA, 2014), e à moralidade (MACKEY, 2008), representando o equilíbrio e a retidão que devem guiar a vida dos membros. Outros símbolos significativos incluem o Templo de Salomão, que simboliza a busca da perfeição espiritual, e a Pedra Bruta, representando o trabalho que cada maçom deve fazer em si mesmo para alcançar o desenvolvimento moral.

Esses símbolos são explorados e aprofundados através de rituais específicos que, embora variem entre diferentes ritos, sempre enfatizam o crescimento espiritual e a busca pelo autoconhecimento. Os rituais também têm a função de conectar os maçons com uma tradição histórica, reforçando a coesão e a identidade do grupo.

Influência da Maçonaria na Sociedade e Cultura

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a Maçonaria teve um impacto considerável em movimentos sociais e culturais, especialmente na Europa e nas Américas. Muitas figuras históricas proeminentes, incluindo filósofos, estadistas e cientistas, foram membros da Maçonaria e levaram seus valores de liberdade e igualdade para o cenário público. A organização exerceu influência durante o Iluminismo, um período que incentivou a valorização do racionalismo e dos direitos individuais, com pensadores como Voltaire e Benjamin Franklin entre seus membros.

Durante o período das revoluções americanas e francesa, a Maçonaria desempenhou um papel sutil, mas significativo, na promoção de ideais democráticos e de direitos humanos. Por exemplo, “[…] as lojas maçônicas construíam uma rede de caridade sistemática, prevendo auxílios diretos aos irmãos necessitados, abrigo aos viajantes maçons de outras paragens, escolas para crianças pobres e orfanatos para filhos e viúvas desamparadas” (DE AZEVEDO, 1996-1997, p. 189). Além disso, A Declaração de Independência dos Estados Unidos, por exemplo, reflete vários dos princípios maçônicos de liberdade e igualdade.

Conclusão

A Maçonaria se destaca como uma organização que, ao longo dos séculos, transcendeu sua origem como guilda de ofício para se tornar um movimento filosófico com forte impacto social e cultural. Seus ideais de fraternidade, liberdade e autoconhecimento continuam a atrair indivíduos de diferentes origens e interesses, criando uma rede internacional dedicada ao aprimoramento moral e espiritual. Embora cercada de mistério, a Maçonaria permanece uma influência importante na formação do pensamento ocidental, promovendo valores que ainda ecoam nas sociedades contemporâneas.

Referências

BARATA, A. M.. A maçonaria e a ilustração brasileira. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 1, n. 1, p. 78–99, 1994. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hcsm/a/LfLfqzVMf4Cp4KGS9Q7XbxN/#&gt;. Acesso em: 04. nov. 2024.

DE AZEVEDO, C. M. M. Maçonaria: história e historiografia. Revista USP, São Paulo, n. 32, p. 178-189, 1996-1997. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/revusp/article/download/26042/27771/30227&gt;. Acesso em: 04. nov. 2024.

GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Vade-mécum Maçônico. GOB, 2015.

MACKEY, A. G. O Simbolismo da Maçonaria: descubra e entenda seus símbolos, lendas e mitos. São Paulo: Universo dos Livros, 2008.

MELKISEDEK. Iniciação á Maçonaria Adonhiramita Aprendiz. Espírito Santo: A Gazeta Maçônica, 2002.

SOUZA, R. N. Desmistificando a Maçonaria: a partir da experiência na A∴R∴L∴S∴ Universitária Prof.ª Carmem Sylvia de Albuquerque Feitosa Nº 3.567 – (GOBAC). SAJEBTT, Rio Branco, UFAC, v. 6, n. 1, p. 378-390, 2019. Disponível em: <https://periodicos.ufac.br/index.php/SAJEBTT/article/download/2433/1573/6307&gt;. Acesso em: 04. nov. 2024.

VEIGA, A. T. A Identificação de Termos de Maçonaria Simbólica Usando Corpora Comparáveis. 2014. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada e Estudos de Linguagem) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), São Paulo, 2014. Disponível em: <https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/13692/1/Alexandre%20Trigo%20Veiga.pdf&gt;. Acesso em: 05. nov. 2024.

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