Xamanismo

Introdução

O xamanismo é uma prática espiritual ancestral que se manifesta em diversas culturas ao redor do mundo, caracterizada pela mediação entre o mundo material e o espiritual através de estados alterados de consciência. Esta prática remonta a pelo menos 30 mil anos, com evidências arqueológicas encontradas em pinturas rupestres, especialmente no sul da França (LYRA, 2007).

“Ao se falar de xamã ou xamanismo, nos referimos a um conceito antropológico construído a partir de dados sobre importantes membros do povo Tugo da Sibéria (yamã) que cumpriam uma função social específica” (BARRETO, 2021, p. 499). Embora tenha raízes profundas nas culturas siberianas, práticas xamânicas são observadas em diversas regiões, incluindo Ásia, Austrália, África, Américas e Europa, indicando uma presença quase universal dessa tradição espiritual.

Práticas e Funções

O xamã, ou pajé, é o indivíduo que possui a capacidade de transitar entre o mundo terreno e o espiritual. Através de estados de transe, frequentemente induzidos por meio de técnicas como toques rítmicos de tambor, cantos ou ingestão de substâncias enteógenas, o xamã busca orientação espiritual, cura e conhecimento para sua comunidade. Esses estados alterados de consciência permitem ao xamã acessar realidades não ordinárias, facilitando processos de cura e aconselhamento espiritual.

A função do xamã é multifacetada, abrangendo desde a cura de enfermidades até a condução de rituais e a preservação da memória ancestral de seu povo. Historicamente, “[…] é possível afirmar que os xamãs foram os primeiros humanos, ainda no período paleolítico, a cuidar e curar outros humanos em seus processos de adoecimento físico, mental e espiritual […]” (BARRETO, 2021, p. 499). Logo, a cura xamânica não se restringe ao corpo físico; ela envolve também aspectos espirituais e emocionais, reconhecendo a interconexão entre mente, corpo e espírito.

No contexto sul-americano, práticas xamânicas são intrínsecas a diversas culturas indígenas. Por exemplo, a sociedade Mochica, que floresceu na costa norte do Peru entre os séculos I e VIII d.C., produziu cerâmicas rituais que evidenciam práticas de curanderismo e mediação espiritual. Esses artefatos sugerem a presença de figuras xamânicas ou sacerdotais que desempenhavam papéis centrais em rituais de sacrifício humano e na manutenção da ordem sociopolítica (SOARES, 2015).

A relação entre xamanismo e saúde tem sido objeto de estudos contemporâneos. Pesquisas apontam que práticas meditativas neo-xamânicas podem contribuir para o bem-estar psicológico, auxiliando na redução do estresse e promovendo equilíbrio emocional. Essas práticas, ao enfatizarem a conexão mente-corpo e a imersão na natureza, alinham-se a abordagens terapêuticas que reconhecem a importância da espiritualidade e da integração holística no processo de cura (CUNHA; MARIMON; MEDEIROS, 2020).

Conclusão

Em suma, o xamanismo é um sistema cosmológico ancestral de elevada expressão cultural indígena. Suas práticas, centradas na mediação entre mundos e na promoção da cura integral, continuam a oferecer insights valiosos para a compreensão da espiritualidade, da saúde e da interconexão entre os diversos aspectos da experiência humana.

Referências

BARRETO, A. F. O Xamanismo da Psicologia. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, v. 10, n. 3, p. 496-506, 2021. Disponível em: <https://www5.bahiana.edu.br/index.php/psicologia/article/view/3827/4501&gt;. Acesso em: 18. fev. 2025.

CUNHA, N. de C. e.; MARIMON, R. G.; MEDEIROS, G. M. da S. de. Xamanismo e suas contribuições no processo de saúde e doença para a Naturologia. Último Andar, São Paulo, v. 23, n. 36, p. 106-141, 2020. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/ultimoandar/article/view/49715&gt;. Acesso em: 18. fev. 2025.

LYRA, S. Xamanismo: Uma Abordagem Arquetípica. 2007. Monografia (Analista Junguiano) – Instituto Junguiano de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: <https://ijpr.org.br/monografias/xamanismo-uma-abordagem-arquetipica-suzana-lyra/?utm_source=chatgpt.com&gt;. Acesso em: 18. fev. 2025.

SOARES, D. L. Xamanismo e cosmovisão andina: um estudo sobre práticas de curanderismo Mochica expressas na cerâmica ritual. 2015. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-12082015-164534/publico/DeboraLeonelREVISADA.pdf&gt;. Acesso em: 18. fev. 2025.

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