Definição
Por ser um constructo complexo, há muitas definições acerca da inteligência, desde as mais antigas até as mais modernas, não havendo um consenso absoluto. Segundo a própria etimologia da palavra, “inteligência” significa escolher entre duas coisas, tendo em vista que em sua composição encontra-se inter, que quer dizer “entre” e eligere que quer dizer “escolher” (BLANCO et al., 2017).
Teorias Clássicas da Inteligência
As teorias sobre a inteligência podem ser agrupadas em diferentes abordagens, cada uma oferecendo uma perspectiva distinta sobre a natureza e estrutura da inteligência.
1. Teoria Fatorial (Psicométrica ou Diferencial)
Esta abordagem centra-se nos produtos das atividades cognitivas, ou seja, nos resultados mensuráveis, sem necessariamente considerar os processos subjacentes. Utiliza a análise fatorial para decompor a inteligência em múltiplos fatores ou habilidades hipotéticas que explicariam as diferenças individuais no desempenho em testes. Autores como Spearman, Thurstone e Guilford contribuíram significativamente para essa perspectiva, propondo desde um fator geral de inteligência até uma multiplicidade de aptidões independentes.
2. Teoria Desenvolvimentista
Proposta por Jean Piaget, esta teoria sugere que a inteligência é um processo de adaptação que se desenvolve em estágios ao longo da vida. Enfatiza a busca pelo equilíbrio como motor do desenvolvimento cognitivo, considerando que a inteligência evolui através de interações contínuas com o ambiente. Ou seja, para ele, a inteligência se modifica e depende da ação do indivíduo (LEFRANÇOIS, 2016).
3. Teoria Sociocultural
Lev Vygotsky destacou a influência das interações sociais e culturais no desenvolvimento da inteligência. Introduziu conceitos como a Zona de Desenvolvimento Proximal, enfatizando que o aprendizado ocorre por meio da mediação social e cultural, e que a inteligência é moldada pelo contexto histórico e social do indivíduo.
4. Teoria Cognitivista
Focada na compreensão dos processos mentais subjacentes ao comportamento inteligente, esta abordagem considera os mecanismos mentais básicos que influenciam a cognição. Robert Sternberg, um dos principais representantes dessa perspectiva, propôs a Teoria Triárquica da Inteligência, que abrange três componentes: analítica, criativa e prática.
Teoria das Inteligências Múltiplas
Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard, propôs que a inteligência não é uma entidade única, mas uma coleção de habilidades distintas. Inicialmente, Gardner identificou sete tipos de inteligência:
- Lógico-Matemática: habilidade para lidar com raciocínios lógicos e numéricos.
- Linguística: capacidade de usar a linguagem de maneira eficaz.
- Espacial: aptidão para perceber o mundo visual-espacial com precisão.
- Musical: talento para apreciar, compor e executar padrões musicais.
- Corporal-Cinestésica: competência em usar o corpo para resolver problemas ou criar produtos.
- Interpessoal: facilidade em entender e interagir com outras pessoas.
- Intrapessoal: capacidade de compreender a si mesmo.
Posteriormente, Gardner adicionou outras inteligências, como a naturalista, que envolve a habilidade de reconhecer e classificar espécies da flora e fauna (GARDNER, 1995).
Inteligência Emocional
Introduzido por Peter Salovey e John Mayer, e popularizado por Daniel Goleman (1995), o conceito de inteligência emocional refere-se à capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções, bem como as emoções dos outros. Envolve habilidades como autoconsciência, autorregulação, motivação, empatia e habilidades sociais. A inteligência emocional é crucial para o bem-estar pessoal e para a eficácia nas interações sociais e profissionais.
Abordagens Biológicas e Cognitivas da Inteligência
As abordagens biológicas buscam entender a inteligência a partir de bases neurofisiológicas. Por exemplo, Hebb propôs a existência de três tipos de inteligência:
- Inteligência A: potencial biológico inato.
- Inteligência B: inteligência manifestada através da interação com o ambiente.
- Inteligência C: inteligência medida por testes psicométricos.
Já as abordagens cognitivas focam nos processos mentais envolvidos na inteligência, como atenção, memória e resolução de problemas. Essas perspectivas buscam compreender como as informações são processadas e utilizadas pelo indivíduo (FARIA, 2003).
Podemos resumir a inteligência em três capacidades distintas. A primeira é a capacidade de aprender com a experiência, que envolve adquirir, reter e utilizar o conhecimento. A segunda, é a capacidade de reconhecer problemas, identificando questões que necessitam de soluções. E a terceira é a capacidade de resolver problemas, aplicando conhecimentos e habilidades para encontrar soluções eficazes.
Como aumentar a inteligência
Ao contrário do que se pensava décadas atrás, sabemos que o cérebro continua se modificando ao longo da nossa vida. Para isso, é dado o nome de neuroplasticidade. A neuroplasticidade implica que as redes neurais mudam, formando novas conexões sinápticas. Um estudo demonstrou que essa mudança ocorre em maior grau quando fazemos jejum intermitente (MATTSON et al., 2018).
A meditação possui impactos significativos no aumento da atenção, que por sua vez, é um dos componentes, ou ainda assim, um dos processos que envolvem a inteligência. Foi observado em um grupo de participantes de um estudo que a prática de Meditação do tipo Mindfulness melhorou a sua capacidade de se concentrar em uma coisa e ignorar as distrações (GOLEMAN; DAVIDSON, 2017).
Por fim, podemos citar também a prática de exercícios físicos como um dos aspectos do aumento da inteligência. Uma proteína ligante chamada Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF, do inglês brain-derived neurotophic factor) é responsável pela manutenção e produção de neurônios (a neurogênese) e é liberada durante o exercício físico. A neurogênese está associada à aprendizagem e à memória (TAVARES et al., 2021) duas partes inexoráveis da inteligência. Logo, o exercício físico possui o potencial de auxiliar na ampliação da inteligência.
Implicações Contemporâneas
A compreensão da inteligência tem profundas implicações em áreas como educação, psicologia e gestão organizacional. Reconhecer a diversidade de inteligências pode levar a práticas educacionais mais inclusivas e personalizadas, atendendo às necessidades individuais dos alunos.
Conclusão
Os conceitos explanados abarcam uma pequena amostra do que é a inteligência em toda sua complexidade e completude. Desde Piaget até Vygotsky, pudemos entender como a psicologia define e segmenta a inteligência e a aprendizagem. Constatamos que existem muitos tipos de inteligência, incluindo inteligência emocional, e que afinal, a inteligência pode ser aumentada ao longo da vida.
Referências
BLANCO, M. B. et al. O que é inteligência? Percepções de professores do ensino fundamental. Espacios, v. 38, n. 50, p. 25-35, 2017. Disponível em: <https://www.revistaespacios.com/a17v38n50/a17v38n50p25.pdf>. Acesso em: 10. fev. 2025.
CHAVES, J. M. Neuroplasticidade, memória e aprendizagem: Uma relação atemporal. Rev. psicopedag., São Paulo, v. 40, n. 121, p. 66-75, 2023. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862023000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 10. fev. 2025.
FARIA, L. Inteligência humana: abordagens biológicas e cognitivas. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 13, n. 25, p. 119–121, 2003. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/paideia/a/kNtjndwLvbcqVfJBsjxr4Qn/>. Acesso em: 04. mar. 2025.
GARDNER, H. Inteligências Múltiplas: a teoria na Prática. Porto Alegre: Artmed, 1995.
GOLEMAN, D. Emotional Intelligence. Nova York: Bantam, 1995.
GOLEMAN, D.; DAVIDSON, R. J. A Ciência da Meditação: como transformar o cérebro, a mente e o corpo. Tradução Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.
LEFRANÇOIS, G. R. Teorias da Aprendizagem. São Paulo: Cengage Learning, 2016.
MATTSON, M. P. et al. Intermittent metabolic switching, neuroplasticity and brain health. Nature Reviews Neuroscience, v. 19, n. 2, p. 63–80, 2018. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5913738/>. Acesso em: 25. abr. 2023.
TAVARES, L. F. J. et al. Efeito do exercício físico sobre o BDNF circulante: uma breve revisão de literatura. Revista Neurociências, v. 29, p. 1-25, 2021. Disponível em: <https://periodicos.unifesp.br/index.php/neurociencias/article/download/11575/8867/51858>. Acesso em: 04. mar. 2025.
