Mitologia Egípcia

Introdução

A mitologia egípcia constitui um conjunto complexo e fascinante de narrativas, crenças e práticas religiosas desenvolvidas ao longo de milênios no Egito Antigo. Essas histórias não apenas explicavam fenômenos naturais e a origem do mundo, mas também desempenhavam um papel central na organização social e política da civilização egípcia. O seu panteão é caracterizado por uma vasta diversidade de deuses e deusas, frequentemente associados a elementos naturais, animais e aspectos da vida cotidiana.

Como aponta Gadalla (2003b), no começo, os egípcios criam em um único Deus, imortal, invisível, eterno e onisciente. Esse Deus único era representado por funções e atributos, atributos estes que eram chamados de neteru, o plural de neter. Deus só poderia ser conhecido pelas suas qualidades e atributos. Dessa forma, um único Deus passou a ser representado por um panteão de neteru, sendo que cada neter representa um aspecto divino.

Mitos Fundamentais

Dentre os diversos mitos egípcios, o primeiro mito significativo é o da criação, que varia conforme a região. Em Heliópolis, acreditava-se que Atum emergiu do caos primordial (Nun) e criou Shu (ar) e Tefnut (umidade), que, por sua vez, geraram Geb (Terra) e Nut (Céu). Dessa união nasceram Osíris, Ísis, Seth e Néftis, formando a Enéade, um grupo de nove deuses primordiais venerados naquela região. Alguns acadêmicos colocam também Ptah como sendo um dos primeiros deuses, havendo certa discordância.

Posterior a esse primeiro panteão, vieram os novo deuses: Hator (vaca), Anúbis (chacal), Sobek (crocodilo), Ápis (touro), Thoth (íbis), Tuéris (hipopótamo), Ammit (cabeça de crocodilo, patas dianteiras de leão e patas traseira de hipopótamo), Sekhmet (leoa), Bastet (gato) e Ma’at (a deusa da justiça). Cada um desses deuses era representado com a cabeça de um animal diferente, exceto Ma’at que por ser responsável pela justiça divina, deveria preservar a racionalidade humana. Os egiptólogos pensavam que era porque os egípcios veneravam os animais, mas na verdade, os egípcios observavam atentamente o comportamento dos animais e entendiam que cada animal possui uma característica única. Por exemplo, o escaravelho é um animal que envolve as suas fezes em uma bola de barro e a empurra indefinidamente, ultrapassando qualquer obstáculo, até achar um local adequado para colocar seus ovos. Por possuir essa característica de incansável determinação, o escaravelho se tornou símbolo dos iniciados e amuleto para os mortos vencerem qualquer desafio no pós-morte.

Outro mito importante e um dos mais emblemático é o mito do ciclo de Osíris. Segundo a narrativa, Osíris foi assassinado e esquartejado em quatorze pedaços por seu irmão Seth, que desejava usurpar o trono. Ísis, esposa de Osíris, reuniu os pedaços do corpo do marido e, com seus poderes mágicos, o ressuscitou temporariamente, concebendo seu filho Hórus. Hórus, ao atingir a maturidade, vingou a morte do pai, derrotando Seth e assumindo o trono do Egito (SANTOS, 2003). Este mito não apenas explicava a sucessão real, mas também reforçava a crença na vida após a morte e na justiça divina.

O mito sobre o julgamento dos mortos também era de grande relevância no Egito Antigo. Era dito que ao morrer, o morto entregava seu coração para Anúbis, que o colocava na balança de Osíris. De um lado ficava o coração e do outro a pena da verdade. Se o coração pesasse mais do que a pena, sinal que estava cheio de maldade, o falecido era devorado pela deusa Ammit. Caso a pena fosse mais pesada do que o coração, o morto era considerado justo e conduzido por Osíris para o pós-vida.

Resumo do Panteão Egípcio: Divindades Principais

Entre as principais divindades, destacam-se:

  • : Deus solar e criador supremo, Rá era considerado o responsável pelo ciclo diário do sol e pela manutenção da ordem cósmica.
  • Osíris: Inicialmente associado à vegetação e ao ciclo agrícola, Osíris tornou-se o deus dos mortos e da ressurreição, simbolizando a esperança de vida após a morte.
  • Ísis: Esposa de Osíris e mãe de Hórus, Ísis era venerada como deusa da fertilidade, maternidade e magia, sendo uma das divindades mais populares do Egito Antigo.
  • Hórus: Filho de Osíris e Ísis, Hórus era o deus do céu e da realeza, frequentemente representado como um falcão ou um homem com cabeça de falcão.
  • Seth: Irmão de Osíris, Seth personificava o caos, a desordem e a violência, sendo associado a tempestades e desertos.

Essas divindades desempenhavam papéis centrais nos mitos egípcios, refletindo a complexidade e a riqueza da religiosidade dessa civilização.

Thoth e Hermes Trismegisto, uma mesma pessoa?

A mitologia egípcia não apenas estruturava a visão de mundo da civilização do Nilo, mas também influenciava tradições filosóficas posteriores. Segundo Effgen (2023), há uma relação direta entre as cosmogonias egípcias e os textos da literatura hermética, onde Thoth, o deus da sabedoria, é identificado com Hermes Trismegisto. Essa fusão de tradições permitiu que conceitos egípcios, como a criação a partir do verbo divino e a importância da harmonia cósmica (Ma’at), fossem assimilados por escolas filosóficas gregas e neoplatônicas. Dessa forma, a influência da mitologia egípcia transcendeu os limites de seu tempo e espaço, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento esotérico e filosófico na Antiguidade.

Função Psicológica do Mito

Além da influência filosófica, os mitos egípcios refletiam arquétipos psicológicos fundamentais. Fontana (2020) analisa a figura do deus solar Rá sob a perspectiva da psicologia arquetípica de Jung, destacando como a trajetória desse deus representa um ciclo de morte e renascimento que espelha processos psíquicos humanos. A jornada noturna de Rá pelo submundo, onde enfrenta e derrota a serpente Apófis para renascer a cada manhã, pode ser interpretada como uma metáfora da superação de desafios e da renovação interior. Essa abordagem demonstra que a mitologia egípcia não era apenas um conjunto de crenças religiosas, mas também um sistema simbólico rico que continua a oferecer insights para áreas como a psicologia contemporânea.

Função Social e Política da Mitologia

A mitologia egípcia não se restringia ao campo religioso; ela permeava todos os aspectos da sociedade. O faraó, por exemplo, era considerado a encarnação de Hórus na Terra, legitimando seu poder e autoridade. Rituais e festivais religiosos, como o Festival de Opet, reforçavam a coesão social e a identidade cultural, além de assegurar a fertilidade das terras e a prosperidade do povo.

Conclusão

A mitologia egípcia desempenhou um papel fundamental na formação e manutenção da civilização do Egito Antigo. Seus mitos e divindades não apenas explicavam a ordem cósmica e a vida após a morte, mas também estruturavam a sociedade, influenciando desde a política até as práticas cotidianas. O legado dessas lendas perdura até os dias atuais, evidenciando a riqueza simbólica e a profundidade espiritual dos antigos egípcios.

Referências

EFFGEN, A. L. S. Entre Thoth e Hermes Trismegisto: As cosmogonias egípcias na Literatura Hermética. 2023. Dissertação (Mestrado em Ciências das Religiões) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023. Disponível em: <https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/32577&gt;. Acesso em: 13. mar. 2025.

FONTANA, A. D. M. M. Rá: os arquétipos na mitologia egípcia. Revista Mosaico – Revista de História, Goiânia, v. 13, p. 81–87, 2020. Disponível em: <https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/view/7534&gt;. Acesso em: 13 mar. 2025.

GADALLA, M. Cosmologia egípcia: o universo animado. Tradução de Fernanda Rossi. São Paulo: Madras Editora LTDA, 2003b.

SANTOS, P. V. dos. Religião e sociedade no Egito antigo: do mito de Ísis e Osíris na obra de Plutarco (I d.C.). 2003. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Assis, 2003. Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/entities/publication/207afefb-3625-441a-963c-10b88853246c&gt;. Acesso em: 13. mar. 2025.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close