Mitologia Celta

Introdução

A mitologia celta constitui um corpus complexo de crenças, narrativas e práticas religiosas do povo celta conformando uma das tradições religiosas mais ricas da Europa Antiga. Apesar de amplamente fragmentária devido à ausência de registros escritos contemporâneos aos períodos pré-cristãos, a mitologia celta foi transmitida sobretudo pela oralidade e registrada apenas séculos mais tarde, muitas vezes sob influência de autores romanos ou copistas cristãos. Essa mitologia representa um universo simbólico profundamente conectado à natureza, ao tempo cíclico e a uma cosmovisão animista (GREEN, 1997).

Fontes e Transmissão da Mitologia Celta

A mitologia celta não foi originalmente registrada por seus próprios povos, uma vez que os druidas — a classe sacerdotal celta — cultivavam uma tradição oral que evitava e até proibia a escrita para manter o caráter esotérico do conhecimento (CHADWICK, 1997). Entre os documentos mais relevantes, destacam-se:

  • Os relatos romanos, como De Bello Gallico, de Júlio César;
  • Os manuscritos medievais irlandeses, como o Livro das Invasões da Irlanda (Lebor Gabála Érenn), o Ciclo do Ulster e o Ciclo Feniano (ciclos mitológicos);
  • O Mabinogion, conjunto de contos galeses que mesclam mitologia e tradição folclórica (MACCULLOCH, 1911).

Embora permeados por visões externas e reinterpretados ao longo do tempo, tais documentos oferecem importante panorama do imaginário religioso celta.

Cosmologia e Estrutura do Mundo Celta

Os celtas concebiam o universo em múltiplas camadas interpenetrantes, não necessariamente hierárquicas. Três reinos fundamentais constituem sua cosmologia: o Mundo Superior, domínio dos deuses celestes e forças luminosas; o Mundo Intermediário, onde habitam os seres humanos e os espíritos da natureza; e o Mundo Inferior, o submundo ou o Sídh, habitado pelos deuses ctônicos e os Tuatha Dé Danann após sua derrota pelos invasores humanos (os Milesianos). Importante frisar que o “inferior” não possui a conotação de “maligno”, mas refere-se a uma dimensão de mistério e poder ancestral, frequentemente acessível por colinas, lagos e bosques sagrados.

A natureza cíclica do tempo é outro traço distintivo da mitologia celta, com festas sazonais como Samhain (início do inverno), Imbolc, Beltane e Lughnasadh funcionando como portais entre os mundos (ROSS, 1992).

O universo celta é vivo e animado, onde rios, montanhas, árvores e animais são considerados seres sagrados, dotados de espírito. Essa perspectiva animista é compartilhada por diversas tradições xamânicas, com as quais a religião celta mantém semelhanças estruturais (GREEN, 2005).

O Panteão Celta

O panteão celta é vasto, regionalmente diversificado e, muitas vezes, multifuncional. Entre as divindades mais proeminentes estão:

  • Dagda: o “bom deus”, pai dos deuses, deus da abundância e da sabedoria, possuidor de um caldeirão mágico e de um bastão que tanto mata quanto ressuscita.
  • Brigid: deusa tríplice da poesia, cura e forja, associada tanto ao fogo criador quanto às águas sagradas; sua importância foi tal que foi cristianizada como Santa Brígida.
  • Lugh: deus da luz, das artes e da guerra. É o herói solar relacionado à soberania e à justiça; muitas vezes identificado com Mercúrio pelos romanos.
  • Cernunnos: divindade da fertilidade e dos animais selvagens, frequentemente representado em posição meditativa com serpentes e chifres de cervo (GREEN, 1997).

Além dos deuses, há uma miríade de entidades menores, como fadas, dríades, kelpies, banshees e espíritos ancestrais. Esses deuses revelam uma mitologia que não separa o divino do natural, mas que enxerga o sagrado em todas as formas de vida.

Narrativas e Ciclos Míticos

A mitologia celta é organizada em ciclos narrativos, especialmente nas tradições irlandesa e galesa. Destacam-se:

  • Ciclo Mitológico: descreve as invasões sucessivas da Irlanda por diferentes raças míticas, incluindo os Tuatha Dé Danann e os Fomorianos; representando o embate entre ordem e caos.
  • Ciclo do Ulster: protagonizado por Cúchulainn, herói guerreiro semidivino cuja história é permeada por valores heroicos e elementos sobrenaturais;
  • Ciclo Feniano: centrado em Fionn mac Cumhaill e seu grupo de guerreiros errantes (Fianna); heróis nômades que vivem entre o mundo dos homens e dos deuses, em harmonia com a natureza.
  • Ciclo dos Reis: reúne mitos e lendas a respeito dos antigos reis da Irlanda, conferindo legitimidade divina às linhagens reais e entrelaçando mitologia e pseudo-história (MACKILLOP, 2006).

Essas narrativas combinam elementos épicos, religiosos e etiológicos, cumprindo papel essencial na formação da identidade coletiva dos clãs celtas.

Simbolismo e Práticas Espirituais

O simbolismo celta é marcado pela presença constante do número três — trindades divinas, funções sociais (sacerdotes, guerreiros e produtores), e formas como o triskelion e o triquetra. A árvore é outro símbolo central, em especial o carvalho, cuja presença em centros sagrados era constante. Acreditava-se que certos locais (colinas, fontes, cavernas) funcionavam como portais entre os mundos (ROSS, 1992) e que elementos naturais como rios, pedras e animais eram portadores de força vital (numen).

As práticas espirituais incluíam rituais xamânicos (como as viagens espirituais dos druidas), de iniciação, sacrifícios (humanos e animais), a crença na metempsicose (transmigração das almas), peregrinações a locais sagrados e a veneração de antepassados. A figura do druida é central: não apenas sacerdote, mas também juiz, astrônomo, médico e poeta, com acesso aos segredos do cosmos (CHADWICK, 1997).

Considerações Finais

A mitologia celta revela um mundo onde o visível e o invisível se interconectam, onde o sagrado está intimamente entrelaçado com o natural, e onde os deuses são expressões das forças vitais da terra, da água, do fogo e do céu. Seu sistema simbólico, sua cosmologia complexa e sua narrativa profundamente integrada às paisagens mostram uma civilização que via no mito uma forma de ordenar o mundo e compreender a existência. Apesar das lacunas e distorções históricas, o estudo da mitologia celta continua a oferecer importantes chaves interpretativas sobre o imaginário profundo e simbólico dos povos que a conceberam.

Referências

CHADWICK, N. The Celts. Londres: Penguin Books, 1997.

GREEN, M. J. The Gods of the Celts. Stroud: Sutton Publishing, 1997.

GREEN, M. J. Exploring the World of the Druids. Londres: Thames & Hudson, 2005.

MACCULLOCH, J. A. The Religion of the Ancient Celts. Londres: Constable, 1911.

MACKILLOP, J. Myths and Legends of the Celts. Londres: Penguin, 2006.

ROSS, A. Pagan Celtic Britain: Studies in Iconography and Tradition. London: Constable, 1992.

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