Introdução
Entre os documentos apócrifos de caráter profético que mais despertaram interesse ao longo dos séculos figura a Profecia dos Papas, atribuída a São Malaquias, arcebispo de Armagh, na Irlanda, no século XII. Segundo a tradição, São Malaquias teria recebido uma visão profética durante uma visita a Roma em 1139, na qual lhe teriam sido revelados os nomes e os lemas simbólicos de todos os papas que governariam a Igreja Católica desde seu tempo até o fim dos tempos. Publicada apenas em 1595 por Arnold de Wion em sua obra Lignum Vitae, a profecia alimenta, desde então, especulações escatológicas sobre o destino da Igreja e o advento do Juízo Final (WION, 1595; BANDER, 1973).
Contexto histórico e autenticidade
A suposta autoria da profecia por São Malaquias é contestada por diversos estudiosos. A ausência de qualquer menção anterior a 1595 e o fato de que os lemas que descrevem os papas anteriores a essa data são surpreendentemente precisos, ao passo que os posteriores se tornam vagos e ambíguos, sugerem que o documento possa ser uma falsificação do final do século XVI (MCGINN, 1998). Tal hipótese encontra apoio na análise crítica feita por historiadores como Claude-François Menestrier e, mais recentemente, por pesquisadores como John Hogue (HOGUE, 2000).
Estrutura e conteúdo da profecia
A profecia consiste em uma lista de 112 lemas latinos, cada um supostamente correspondendo a um pontífice, começando por Celestino II (1143–1144). Os lemas são geralmente curtos, como Ex castro Tiberis (“Do castelo do Tibre”) ou De medietate lunae (“Da metade da lua”), e estariam relacionados a origens, brasões ou eventos significativos dos respectivos papas.
O último lema, o 112º, refere-se a um papa denominado Petrus Romanus (“Pedro, o Romano”):
In persecutione extrema S.R.E. sedebit Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulationibus: quibus transactis civitas septicollis diruetur, et Iudex tremendus iudicabit populum suum. Finis.
(“Na última perseguição da Santa Igreja Romana reinará Pedro Romano, que apascentará as ovelhas em meio a muitas tribulações; após as quais a cidade das sete colinas será destruída, e o Juiz terrível julgará o povo. Fim.”) (WION, 1595, p. 307).
Interpretações escatológicas e a destruição de Roma
A menção à “cidade das sete colinas”, uma clara alusão a Roma, insere a profecia em um contexto escatológico que remete às visões apocalípticas da tradição cristã, especialmente ao livro do Apocalipse (Ap 17:9). A figura de Petrus Romanus, enquanto sucessor final de Pedro, reforça a ideia de que o papado chegaria a um desfecho em um tempo de grandes tribulações. Essa narrativa é comumente associada à noção de apostasia, perseguição à Igreja e a iminência do Juízo Final, conforme descrito na teologia escatológica de autores como Santo Agostinho (De Civitate Dei, XIX.27) e, em tempos mais recentes, Joseph Ratzinger (Bento XVI) em suas reflexões sobre a crise da fé contemporânea (RATZINGER, 2007).
A destruição de Roma, nesse cenário, assume um papel simbólico e literal. Simbolicamente, representa o colapso moral e espiritual do mundo ocidental; literalmente, evoca uma punição divina final, em consonância com a tradição profética apocalíptica cristã. O Catecismo da Igreja Católica (1992, n. 675–677) também contempla a possibilidade de uma provação final para a Igreja, envolvendo uma “impostura religiosa” e uma perseguição escatológica.
O papado contemporâneo e o fim da profecia
Segundo a contagem tradicional da profecia, o papa Bento XVI (Joseph Ratzinger) corresponderia ao 111º lema: Gloria Olivae. Alguns analistas interpretaram este lema como aludindo à ordem beneditina, associada à paz e à oliveira, o que se encaixaria simbolicamente com o perfil teológico de Bento XVI. Com a eleição de Francisco, surge a dúvida: seria ele Petrus Romanus ou estaria fora da sequência?
Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, não se chama Pedro, tampouco é romano por nascimento, mas os defensores da profecia apontam para possíveis simbolismos: seu nome remete a São Francisco de Assis, cuja ordem teve um papel crítico nos momentos de crise da Igreja; além disso, sua atuação pastoral o coloca como um guia das “ovelhas em tribulação”, como descrito na profecia. No entanto, essas interpretações permanecem conjecturais.
Papas do século XX até hoje segundo a Profecia (lista completa anexa em PDF)
105. Fides Intrepida – Pio X (1903–1914): Defensor inflexível da fé contra o modernismo.
106. Pastor Angelicus – Pio XII (1939–1958): Conhecido por sua figura austera e espiritualizada.
107. Pastor et Nauta – João XXIII (1958–1963): Patriarca de Veneza (cidade dos navegadores); pastor pela função.
108. Flos florum – Paulo VI (1963–1978): Seu brasão continha três flores de lírio (símbolo de pureza).
109. De medietate lunae – João Paulo I (1978): Reinou por apenas 33 dias (de “meia lua”).
110. De labore solis – João Paulo II (1978–2005): Nasceu e foi sepultado em dias de eclipse solar (eclipses em 1920 e 2005).
111. Gloria olivae – Bento XVI (2005–2013): Suposta ligação com a ordem beneditina, associada à paz (oliveira).
O último papa segundo a profecia
112. Petrus Romanus – (Papa Francisco? 2013–2025): “Na última perseguição da Santa Igreja Romana, reinará Pedro Romano…”. Embora Francisco não se chame Pedro nem seja romano, especulações simbólicas o associam ao lema como pastor das ovelhas em meio às tribulações.
Conclusão
A profecia de São Malaquias, embora cercada de controvérsias quanto à sua autenticidade, continua a desempenhar um papel simbólico poderoso no imaginário católico e escatológico. Ao apontar para uma sucessão de papas culminando em uma figura final associada à destruição de Roma e ao Juízo Final, ela articula um tema persistente na tradição cristã: a expectativa do fim dos tempos e a renovação escatológica. Mais do que um roteiro cronológico, a profecia expressa, talvez, uma visão simbólica e teológica da trajetória histórica da Igreja.
Referências
BANDER, P. The Prophecies of St. Malachy. Charlotte: Tan Books, 1973.
Catecismo da Igreja Católica. Libreria Editrice Vaticana, 1992.
HOGUE, J. The Last Pope: The Decline and Fall of the Church of Rome – The Prophecies of St. Malachy for the New Millennium. [S. I.]: Element Books, 2000.
MCGINN, B. Visions of the End: Apocalyptic Traditions in the Middle Ages. Nova Iorque: Columbia University Press, 1998.
RATZINGER, J. Eschatology: Death and Eternal Life. 2. ed. Washington: Catholic University of America Press, 2007.
WION, A. de. Lignum Vitae: Ornamentum et Decus Ecclesiae. Veneza: Angelerium, 1595.
