Entenda as Raízes Históricas por trás do Conflito entre Irã e Israel

Muito antes das tensões modernas entre Irã e Israel dominarem os noticiários internacionais, as terras que hoje compreendem essas nações já abrigavam civilizações milenares, cujos vínculos foram marcados por episódios de cooperação, mas também por rupturas históricas profundas. O atual território iraniano corresponde ao coração do antigo Império Persa, uma das civilizações mais influentes do mundo antigo, cuja ascensão se deu no século VI a. C. sob o reinado de Ciro II, o Grande.

Ciro não apenas consolidou um dos maiores impérios da Antiguidade — que se estendia da Anatólia até o vale do Indo — como também ficou marcado por uma política inovadora de tolerância religiosa. Em 539 a. C., após conquistar a Babilônia, Ciro libertou os judeus do chamado Cativeiro Babilônico, permitindo que retornassem a Jerusalém e reconstruíssem seu templo. Esse gesto está registrado não apenas em documentos persas, como o Cilindro de Ciro, mas também nas Escrituras Hebraicas (Esdras 1:1-4), sendo frequentemente interpretado como um marco de respeito intercultural (BRIANT, 2002; KUHRT, 2007). Por esse motivo, Ciro é visto até hoje, em tradições judaicas e mesmo por estudiosos modernos, como um símbolo de justiça e liberdade religiosa.

No entanto, esse elo milenar seria interrompido com a conquista persa por Alexandre, o Grande, no século IV a. C., e as dinâmicas entre judeus e persas seguiriam caminhos diversos ao longo dos séculos. A Antiguidade Tardia, o período islâmico medieval e o Império Safávida moldaram o Irã como uma civilização centrada no xiismo, enquanto os judeus viviam ora em dispersão, ora sob impérios diversos, até o surgimento do sionismo político no século XIX (LEWIS, 2014).

A virada do século XX: sionismo, Estado de Israel e a Revolução Islâmica

A tensão moderna entre Irã e Israel não decorre diretamente de antagonismos milenares, mas sim de eventos geopolíticos mais recentes, especialmente a partir de 1948, com a fundação do Estado de Israel em territórios anteriormente sob domínio britânico na Palestina. O novo Estado foi imediatamente reconhecido por diversas nações ocidentais, mas rejeitado por uma ampla coalizão de países árabes e muçulmanos, muitos dos quais viam na criação de Israel uma injustiça histórica contra os palestinos árabes (MORRIS, 2004).

Curiosamente, o Irã sob o xá Mohammad Reza Pahlavi (1941–1979), alinhado com o Ocidente durante a Guerra Fria, reconheceu Israel de fato, embora não de jure, mantendo com ele relações diplomáticas e estratégicas discretas. Durante essa fase, Israel e o Irã cooperaram em projetos militares e de infraestrutura, incluindo o fornecimento de petróleo iraniano a Israel, no contexto do projeto Operation Flower (TAKEYH, 2011).

A ruptura veio com a Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que depôs o xá e instaurou uma república teocrática xiita. A nova ideologia do regime pós-revolucionário adotou uma postura abertamente antissionista e anti-Israel, considerando o Estado judeu como uma “entidade ilegítima” e uma extensão do imperialismo ocidental na região. O apoio de Israel ao regime do xá foi um dos elementos usados para alimentar essa hostilidade (DABASHI, 2007).

Desde então, as relações entre os dois países se tornaram marcadamente beligerantes. O Irã passou a apoiar ativamente grupos como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina — ambos engajados em resistência armada contra Israel. Em contrapartida, Israel passou a considerar o Irã uma ameaça existencial, sobretudo diante do programa nuclear iraniano, que, mesmo sob inspeções internacionais, gera receios de que Teerã possa vir a desenvolver armamentos nucleares.

Ideologia, Território e Memória

O conflito entre ambas as nações, embora muitas vezes lidas sob uma ótica puramente religiosa ou étnica, estão enraizadas em conflitos ideológicos modernos, disputas geoestratégicas e concepções distintas sobre soberania, justiça histórica e ordem mundial. Para o regime iraniano, Israel representa a imposição de uma lógica colonial no Oriente Médio e o símbolo de uma aliança entre Estados Unidos e poderes ocidentais. Para Israel, o Irã é uma potência regional hostil que financia milícias em suas fronteiras e ameaça sua segurança interna e internacional.

Assim, a distância entre persas e israelenses — que já foi, no passado, palco de colaboração e respeito mútuo — tornou-se, nos últimos 45 anos, um dos eixos mais inflamáveis da política internacional contemporânea. O confronto não se resume apenas à retórica diplomática ou a disputas territoriais indiretas: ele simboliza o embate entre dois projetos de civilização que carregam, cada qual à sua maneira, memórias profundas de glória, humilhação, resistência e identidade.

Considerações finais

Entender as origens históricas do relacionamento entre Irã e Israel é essencial para superar leituras simplistas, dicotômicas ou meramente sensacionalistas do atual conflito. A história revela que nem sempre essas duas civilizações estiveram em campos opostos — e que há precedentes de coexistência, cooperação e reconhecimento mútuo. Conhecer esse passado é um exercício de empatia histórica, que nos convida a lembrar que, por trás das ideologias e das armas, há seres humanos — com fé, cultura, afetos e sofrimentos — de ambos os lados.

Referências

BRIANT, P. From Cyrus to Alexander: A History of the Persian Empire. University Park: Eisenbrauns, 2002.

DABASHI, H. Iran: A People Interrupted. Nova Iorque: The New Press, 2007.

KUHRT, A. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. Londres: Routledge, 2007.

LEWIS, B. The Jews of Islam. Princeton: Princeton University Press, 2014.

MORRIS, B. The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

TAKEYH, R. Guardians of the Revolution: Iran and the World in the Age of the Ayatollahs. Oxford: Oxford University Press, 2011.

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