
Introdução
A busca pela localização da “sede da alma” no corpo humano constitui uma das investigações mais antigas e fascinantes da história da filosofia, da medicina e da espiritualidade. Ao longo dos séculos, diferentes culturas e pensadores apresentaram concepções distintas sobre onde residiria a essência imaterial do ser humano — aquilo que poderíamos chamar de “alma” ou “consciência”.
No antigo Egito, o coração era considerado o centro da vida espiritual e moral do indivíduo. Era o único órgão deixado no corpo durante a mumificação, pois acreditava-se que ele guardava as virtudes, os pecados e a identidade do falecido (ASSMANN, 2001). Já o filósofo grego Platão associava a alma a diferentes partes do corpo: a alma racional ao cérebro, a irascível ao coração e a concupiscente ao abdômen (PLATÃO, 2016).

Com o advento da filosofia moderna, René Descartes propôs a glândula pineal como o local de interação entre a alma e o corpo. Para Descartes, a pineal seria uma espécie de “ponto de convergência” entre a substância pensante (res cogitans) e a substância extensa ou material (res extensa), uma tentativa de resolver o problema do dualismo (DESCARTES, 1649).
Curiosamente, tradições religiosas também apontam diferentes locais como sede da alma. Os testemunhas de Jeová, por exemplo, defendem que a alma está no sangue, fundamentando a recusa a transfusões sanguíneas. Mas se a alma como tal realmente existe, onde ela estaria localizada?
O Cérebro do Coração
Recentemente, o debate ganhou novos contornos com descobertas na neurocardiologia. O coração, além de sua função hemodinâmica, contém um complexo sistema nervoso intrínseco, composto por aproximadamente 40.000 neurônios, chamado “cérebro do coração” (ARMOUR, 1991). Esse sistema possibilita que o coração opere de maneira parcialmente autônoma, estabelecendo uma comunicação bidirecional com o cérebro central.
A Transferência de Personalidade e Memórias em Transplantes do Coração
Estudos clínicos com pacientes transplantados oferecem pistas provocativas sobre a possível contribuição do coração para aspectos emocionais e comportamentais. Uma pesquisa feita com dez pessoas demonstrou que receptores de transplante cardíaco passaram a manifestar preferências alimentares, musicais, artísticas, sexuais, recreativas e profissionais do doador, mesmo sem conhecimento prévio sobre ele (PEARSALL et al., 2000).
Um outro estudo realizado por pesquisadores do Hospital Universitário em Jidá, na Arábia Saudita, tentou analisar se é possível uma pessoa que recebeu um transplante de órgão pode “herdar” as memórias e personalidade do seu doador. O estudo sugere que os receptores de transplante de coração demonstram inclinações, emoções e memórias semelhantes às dos doadores, indicando uma forma de armazenamento de memória dentro do órgão transplantado. Entre os casos analisados, está o de um menino de nove anos que recebeu o coração de uma garota de três anos que se afogou na piscina de casa. Embora o menino não tivesse conhecimento sobre a origem do novo coração, a mãe relatou que ele passou a ter medo de água, comportamento que não existia antes e que se aproximava da experiência trágica da doadora. A principal hipótese dos pesquisadores é de que o coração e o cérebro estão intrinsecamente ligados, uma vez que o coração possui neurônios e células semelhantes ao cérebro. Dessa forma, o transplante cardíaco pode envolver a transferência de traços de personalidade e memórias do doador para o receptor, desafiando visões convencionais da ciência.
Esses relatos suscitam a hipótese de que memórias ou traços emocionais possam estar codificados em células extracerebrais. A teoria, conhecida como “memória celular”, sugere que tecidos periféricos, como o coração, poderiam armazenar padrões elétricos e bioquímicos associados a experiências emocionais e comportamentais.
Conclusão
A ideia de uma “alma” localizada em um único órgão físico, como o coração ou o cérebro, nasceu de uma hipótese filosófica e mística mas que tem sido estudada rigorosamente pela ciência. A íntima conexão entre cérebro, coração e emoção sugere que qualquer teoria sobre a natureza da alma — caso esta exista — precisará considerar o corpo como uma totalidade integrada, e não como um somatório de partes isoladas. No entanto, com os achados atuais, já é possível afirmar que a transferência de aspectos da mente, como gostos, preferências, memórias e emoções de uma pessoa para outra é um fato. E se entendermos a “alma” como a somatória dos pensamentos e emoções ao longo da vida de um indivíduo? Seria possível afirmar que ela existe e que a encontramos?
Referências
AL-JUHANI, A. et al. Beyond the Pump: A Narrative Study Exploring Heart Memory. Cureus, v. 16, n. 4: e59385, 2024. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38694651/>. Acesso em: 07. jul. 2025.
ARMOUR, J. A. Intrinsic cardiac neurons. Journal of Cardiovascular Electrophysiology, v. 2, n. 4, p. 331–341, 1991. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/j.1540-8167.1991.tb01330.x>. Acesso em: 07. jul. 2025.
ASSMANN, J. The Search for God in Ancient Egypt. Ithaca: Cornell University Press, 2001.
DESCARTES, R. Les passions de l’âme. Paris: Henry Le Gras, 1649.
PEARSALL, P. et al. Changes in heart transplant recipients that parallel the personalities of their donors. Integrative medicine: integrating conventional and alternative medicine, v. 2, n. 2, p. 65-72, 2000. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10882878/>. Acesso em: 7. jul. 2025.
PLATÃO. A República. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
