Vivemos em uma Simulação? O Papel da Consciência na Projeção da Realidade e a Teoria do Universo Holográfico

A hipótese de que vivemos em uma simulação, outrora relegada ao domínio da ficção científica, ganhou consistência filosófica e científica nas últimas décadas, convidando-nos a repensar a natureza fundamental da realidade. Ao lado dessa perspectiva, teorias como a do universo holográfico oferecem uma ruptura paradigmática em relação ao materialismo clássico. Nesse contexto, qual seria o papel da consciência na constituição da realidade? Seria o nosso universo realmente uma projeção ou holograma?

Teoria da Interface da Percepção

O psicólogo e cientista cognitivo Donald Hoffman propõe uma visão profundamente inovadora sobre a relação entre percepção, consciência e realidade. Em sua Interface Theory of Perception (Teoria da Interface da Percepção), Hoffman sustenta que os sistemas perceptivos humanos não evoluíram para fornecer uma representação fiel do mundo em si, mas, antes, para maximizar a sobrevivência e a adaptação. De acordo com essa perspectiva, a realidade percebida, isto é, o que vemos (formas, cores, objetos) funcionaria como uma interface simbólica, algo como ícones em uma tela de computador: simplificações práticas para nos guiar, permitindo que interajamos de modo eficiente com o ambiente, mas não com a “realidade última” (HOFFMAN et al, 2015).

A Matéria como Projeção da Consciência

Hoffman também postula que os conceitos de espaço e tempo da física estão condenados, uma vez que a consciência constitui o fundamento ontológico primário do qual a matéria e o espaço-tempo emergem como construções derivadas. Assim, ao inverter o paradigma materialista predominante, sua teoria sugere que os objetos físicos são projeções dependentes de estruturas ou agentes conscientes, e não o contrário. Por exemplo, ao invés de a consciência emergir do cérebro físico, ele sugere que a matéria é uma projeção da consciência (HOFFMAN, 2008). Embora não trate explicitamente de simulações digitais ou de universos holográficos, sua concepção aproxima-se dessas ideias ao afirmar que aquilo que tomamos por realidade objetiva não passa de uma interface ilusória, cuja função essencial é evolutiva.

O Universo Holográfico de David Bohm

Sua teoria encontra muitas similaridades com a teoria do físico David Bohm. David Bohm foi um colega de Albert Einstein, na Universidade de Princeton, que propôs uma teoria que explicava que o universo é um sistema único e unificado. Essa teoria foi publicada nos Estados Unidos em 1980, em seu livro Wholeness and the Implicate Order e no Brasil, foi publicada em 1992 pela Editora Cultrix, sob o título“A Totalidade e a Ordem Implicada”. Segundo sua visão, se pudéssemos deslocar nossa perspectiva e ver o universo de um ponto de vista superior, todos os objetos do nosso mundo apareceriam como projeções de coisas que estariam acontecendo em outro ambiente fora do nosso campo de observação. Àquilo que podemos ver, ele deu o nome de “explicado” e àquilo que não podemos, deu o nome de “implicado”. As montanhas, rios, lagos, florestas, desertos, animais e objetos, tudo que se encontra individualizado e que podemos ver e tocar são exemplos de ordem explicada da criação. Mas mesmo essas coisas que aparecem separadas, possuem ligação em uma realidade mais “profunda que estamos impossibilitados de ver do lugar que ocupamos na criação”, a essa totalidade ele deu o nome de ordem implicada. É como se a realidade possuísse uma parte visível e uma parte invisível que se relacionam; aquilo que parece e aquilo que é.  

A partir dessa ótica, Bohm concebeu o universo como “um grande padrão cósmico no qual todas as partes são igualmente compartilhadas entre si”, o que ele chamou de “Totalidade Indivisa em Movimento Fluente”.

“Na década de 1970, Bohm ofereceu uma metáfora ainda mais clara para descrever como o universo pode ser pensado como um todo disperso, ainda que indivisível. Refletindo sobre a natureza inter-relacionada da criação, ele se convenceu mais ainda de que o universo funciona como uma grande holograma cósmico. Em um holograma, cada parte de qualquer objeto representado contém a totalidade do objeto, com a única diferença de estar em menor escala. […]. De acordo com a perspectiva de Bohm, o que hoje percebemos como nosso mundo é a projeção de algo ainda mais real e que se passa em um nível mais profundo do processo criativo. O original é o que se encontra no nível mais profundo – o do universo não-manifestado (implicado). Nessa visão do ‘como em cima, assim embaixo’ e ‘como dentro, assim fora’, os padrões encontram-se contido no interior dos padrões, completos dentro e fora de si mesmos, diferindo apenas quanto à escala” (BRADEN, 2008, p. 12-13).

Conclusão

Diante das teorias de Donald Hoffman e David Bohm, torna-se evidente que a realidade, tal como a concebemos, pode ser muito mais um constructo perceptivo ou uma projeção holográfica do que uma estrutura sólida e independente. Tanto a interface simbólica proposta por Hoffman quanto a ordem implicada de Bohm apontam para a possibilidade de um universo em que a consciência exerce papel primordial, seja como matriz fundamental ou como espelho de uma totalidade invisível. Ao reunir tais concepções, somos convidados a questionar as fronteiras tradicionais do materialismo e a contemplar a realidade como um fenômeno emergente, dinâmico e interligado, em que o visível e o invisível, o interior e o exterior, coexistem em uma dança contínua de manifestação e ocultamento. Assim, a pergunta “vivemos em uma simulação?” revela-se não apenas como uma provocação filosófica, mas como um convite a redescobrir a própria essência do que chamamos de real.

Referências

BRADEN, G. A Matriz Divina: uma jornada através do tempo, do espaço, dos milagres e da fé. São Paulo: Cultrix, 2008.

HOFFMAN, D. D. Conscious Realism and the Mind-Body Problem. Mind & Matter, v. 6, n. 1, p. 87–121, 2008. Disponível em: <https://sites.socsci.uci.edu/~ddhoff/ConsciousRealism2.pdf&gt;. Acesso em: 16. jul. 2025.

HOFFMAN, D. D. et al. The Interface Theory of Perception. Psychonomic Bulletin & Review, v. 22, n. 6, p. 1480–1506, 2015. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26384988/&gt;. Acesso em: 16. jul. 2025.

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