
A parapsicologia, enquanto campo de estudo que investiga capacidades psíquicas — como telepatia, precognição, clarividência e telecinesia —, decorre da premissa de que tais fenômenos ultrapassam os limites do atualmente explicável pela ciência tradicional. Esta disciplina sustenta o argumento de que habilidades psi são reais e recorrentes ao longo da história humana, manifestando-se em diferentes contextos culturais e sendo relatadas por personalidades cuja credibilidade conferiu legitimidade às investigações.
I. William James e o embasamento histórico-científico da parapsicologia
William James (1842–1910), célebre filósofo e psicólogo de Harvard, figura proeminente na fundação da psicologia americana, foi também um dos primeiros intelectuais a considerar seriamente os fenômenos psíquicos. Co-fundador da American Society for Psychical Research em 1885, permaneceu envolvido com comunidades científicas dedicadas ao tema até o fim de sua vida (JAMES, 1886).
James realizou investigações meticulosas sobre a mediunidade, especialmente em seus estudos com Leonora Piper, a quem chamou de “corvo branco” — a exceção que prova que nem todos os casos eram fraudulentos. Embora cético quanto à hipótese espírita, James considerava a telepatia uma explicação plausível para informações inacessíveis por meios convencionais (JUNIOR et al., 2013).
Sua postura filosófica foi marcada por uma via intermediária — uma “terceira via” pragmatista — que evitava tanto o crente incondicional quanto o cético absoluto. James sustentava que, na ausência de refutação, certas ideias, especialmente se potencialmente úteis, poderiam ser mantidas como hipóteses vivas. Em seus escritos tardios, expressou sua convicção de que a mente consciente é apenas uma forma de consciência entre muitas, insistindo na necessidade de explorar estados psíquicos além do racional.
II. O caso contemporâneo: Uri Geller e os experimentos da CIA no Stanford Research Institute (SRI)
Na década de 1970, em plena Guerra Fria, os Estados Unidos iniciaram estudos sobre possíveis capacidades psíquicas com fins de inteligência. Um dos fenômenos mais emblemáticos envolveu Uri Geller, suposto psíquico famoso por entortar colheres com o poder da mente. Entre 4 e 11 de agosto de 1973, no Stanford Research Institute (SRI), os físicos Harold Puthoff e Russell Targ, sob patrocínio da CIA, testaram sua habilidade de reproduzir desenhos ocultos à distância. O experimento funcionou da seguinte maneira: um cientista selecionou uma palavra do dicionário que poderia ser desenhada e a desenhou em um pedaço de papel em uma sala isolada. O cientista então pediu que Uri Geller desenhasse a mesma imagem sem ver o desenho, utilizando seus poderes psíquicos. Documentos desclassificados indicam que Geller conseguiu reproduzir com sucesso várias figuras, levando a CIA a descrever os resultados como “convincingly and unambiguous” — convincentes e inequívocos (CIA, 1975/2003).
Este episódio integra o Projeto Stargate, iniciativa que, entre 1972 e 1995, investigou a viabilidade operacional de capacidades como a visão remota. Embora os relatórios finais tenham classificado os resultados como pouco aplicáveis a operações militares, o investimento financeiro e a credibilidade das instituições envolvidas evidenciam que o fenômeno foi levado a sério (CIA, 1975/2003).
III. Outras figuras históricas e os registros de habilidades psíquicas
Ao longo da história, diversas figuras se destacaram pela alegada manifestação de fenômenos psi. Entre elas:
Chico Xavier (1910–2002): médium brasileiro cuja produção psicográfica supera 400 obras atribuídas a autores desencarnados. Seus relatos e práticas levaram estudiosos como Hernani Guimarães Andrade a analisar a hipótese de telepatia complexa e memória extracerebral para explicar seus resultados (ANDRADE, 2001).
Edgar Cayce (1877–1945): é conhecido como o “profeta adormecido” (The Sleeping Prophet) e foi uma das figuras mais notórias no campo da mediunidade e da parapsicologia no século XX. Ele realizava leituras psíquicas em estado de transe, nas quais diagnosticava doenças, prescrevia tratamentos, descrevia vidas passadas e fazia previsões sobre eventos futuros. Das 14.000 leituras que fez, errou uma única previsão, na qual leu o campo do irmão gêmeo do paciente.
Nina Kulagina (1926–1990): cidadã soviética cujos supostos poderes de psicocinese foram objeto de experimentos conduzidos na União Soviética durante a Guerra Fria. Filmagens mostram Kulagina movendo objetos sem contato físico, fenômeno que atraiu a atenção de fisiologistas e militares.
Rosa Kuleshova (1940–1978): também russa, notabilizou-se por possuir a habilidade de ler com as pontas dos dedos (dermóptica), habilidade investigada por cientistas soviéticos e documentada em revistas científicas da época (SOAL; BATEMAN, 1954).
Santa Teresa de Ávila (1515–1582): mística e doutora da Igreja, cujas experiências de levitação e êxtases foram testemunhadas por contemporâneos e registradas em processos canônicos. Embora interpretadas no âmbito religioso, tais manifestações foram posteriormente reavaliadas por pesquisadores como William James como possíveis estados alterados de consciência (JAMES, 1902).
Esses exemplos, que cruzam culturas e séculos, reforçam a hipótese de que fenômenos psi não são anomalias isoladas, mas manifestações que persistem em diferentes contextos históricos e geográficos.
IV. A persistência histórica das manifestações psi
Séculos antes de James ou da Guerra Fria, emergiram narrativas sobre médiuns, clarividentes e milagres inexplicáveis. No século XX, Joseph Banks Rhine institucionalizou a parapsicologia como disciplina experimental na Duke University, avaliando estatisticamente fenômenos como telepatia por meio de cartas Zener e testes probabilísticos (RHINE, 1934). Embora as críticas à falta de replicabilidade tenham marcado o debate, a continuidade dos estudos demonstra a força da questão. A Parapsychological Association, fundada em 1957, integra até hoje a American Association for the Advancement of Science, sinalizando que tais fenômenos permanecem sob consideração científica.
Conclusão
A parapsicologia, longe de ser mera especulação, representa uma tradição intelectual com raízes históricas sólidas. De William James a Uri Geller, passando por Chico Xavier, Nina Kulagina, Rosa Kuleshova e Santa Teresa de Ávila, a evidência histórica sugere que experiências psíquicas têm sido relatadas, estudadas e, em muitos casos, documentadas por autoridades científicas e instituições respeitáveis. Embora a ciência contemporânea ainda não disponha de um modelo explicativo plenamente satisfatório, a recorrência desses fenômenos justifica a manutenção da parapsicologia como campo legítimo de investigação.
Referências
ANDRADE, H. G. Parapsicologia experimental: Introdução metodológica. São Paulo: Pensamento, 2001.
CIA. Experiments – Uri Geller at SRI. Declassified report, 1975/2003.
JAMES, W. The Varieties of Religious Experience. Nova Iorque: Longmans, Green & Co., 1902.
JAMES, W. Report of the Committee on Mediumistic Phenomena. Proceedings of the American Society for Psychical Research, 1886.
JUNIOR, A. S. et al. William James and psychical research: towards a radical science of mind. History of Psychiatry, v. 24, n. 1, p. 62-78, 2013. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24572798/>. Acesso em: 26. ago. 2025.
RHINE, J. B. Extra-sensory perception. Boston: Boston Society for Psychic Research, 1934.
SOAL, S. G; BATEMAN, F. Modern Experiments in Telepathy. New Haven: Yale University Press, 1954.
