Imortalidade da Alma Comprovada pela Ciência? Entenda as Experiências de Quase Morte (EQM)

Introdução

As Experiências de Quase Morte (EQM) constituem um fenômeno reportado por indivíduos que estiveram à beira da morte e que, ao retornarem, descrevem vivências de profunda intensidade e significado. Tais relatos, que incluem sensações de paz absoluta, percepção de estar fora do corpo, travessia por túneis luminosos e encontros com entidades ou pessoas falecidas, têm intrigado médicos, filósofos e pesquisadores há décadas. Para além da curiosidade científica, as EQM colocam em pauta uma questão ancestral: a consciência pode sobreviver à morte biológica? (GREYSON, 1983; VAN LOMMEL et al., 2001; PARNIA et al., 2014).

Estrutura Comum das Experiências

Embora variem em detalhes, as EQM apresentam padrões recorrentes. Entre os elementos mais citados estão:

  • Sensação de paz e ausência de dor, mesmo em contextos clínicos críticos.
  • Deslocamento da consciência para fora do corpo, observando a cena médica “de cima”.
  • Travessia por um túnel em direção a uma luz intensa, descrita como acolhedora e amorosa.
  • Encontros com entes falecidos ou figuras luminosas, frequentemente interpretadas como seres espirituais.
  • Revisão panorâmica da vida, onde momentos significativos são revividos em ordem instantânea, acompanhados de compreensão profunda sobre suas consequências (GREYSON, 1983; MOODY, 1975/2015).

Essas descrições vão muito além de simples sonhos ou alucinações, pela coerência interna, impacto emocional e efeitos transformadores, como demonstram estudos longitudinais (VAN LOMMEL et al., 2001).

Casos Reais de EQM: Relatos Paradigmáticos

1. Pam Reynolds – A Cirurgia em Hipotermia Profunda

Em 1991, Pam Reynolds foi submetida a uma cirurgia delicada para tratar um aneurisma cerebral. O procedimento exigiu hipotermia profunda e parada circulatória completa, o que significa ausência de fluxo sanguíneo cerebral e EEG isoelétrico. Durante esse período, Pam relatou ter saído do corpo, flutuado sobre a equipe médica e observado instrumentos específicos, como uma serra óssea peculiar, descrevendo detalhes confirmados posteriormente (SABOM, 1998).
Ela também relatou ouvir conversas entre os cirurgiões e sentir-se “atraída por uma luz”, percebendo familiares falecidos que a convidavam, mas dizendo que não era sua hora. Essa experiência impactou profundamente sua visão da morte: “Não tenho mais medo”, declarou em entrevistas posteriores (SABOM, 2007).

2. Maria e o Tênis no Parapeito

Outro caso famoso ocorreu nos EUA, quando uma paciente chamada Maria sofreu uma parada cardíaca e descreveu ter deixado o corpo, flutuando para fora da sala, onde viu um tênis azul gasto sobre o parapeito externo do hospital. Após a recuperação, ela mencionou o objeto à enfermeira Kimberly Clark Sharp, que verificou o local e encontrou o tênis exatamente como descrito — inclusive com detalhes, como a posição e um cadarço empoeirado (SHARP, 1995). Este relato é considerado um exemplo de percepção “verídica” durante um estado clínico incompatível com a consciência ordinária.

3. Encontros com a Luz e a Revisão da Vida

Pesquisas qualitativas, como as de Greyson (1983), revelam elementos comuns nas narrativas: muitos relatam uma luz que não é apenas luminosa, mas “inteligente e amorosa”, irradiando compreensão e aceitação incondicional. A revisão da vida é frequentemente acompanhada de um insight moral: não há julgamento externo, mas autocompreensão profunda, baseada no impacto de suas ações sobre os outros. Um sobrevivente descreveu: “Não foi Deus quem me julgou; fui eu, vendo como cada gesto meu reverberava nos outros” (GREYSON, 1983).

4. Relato Infantil – A Menina que Descreveu a Avó

Pesquisas com crianças são particularmente intrigantes, pois reduzem a possibilidade de influências culturais. Greyson (1983) relata o caso de uma menina de 5 anos que, após uma parada respiratória, afirmou ter encontrado “uma senhora sorridente” que lhe disse para voltar. Ao descrever a aparência da mulher, os pais reconheceram a avó falecida da criança — alguém que ela jamais conhecera em vida. Esse tipo de relato levanta questões sobre a origem dessas informações, uma vez que não há memória prévia para justificar a descrição.

5. Experiência no Contexto Hindu

Estudos transculturais mostram que as EQM não se limitam ao Ocidente. Em comunidades hindus, por exemplo, há relatos em que os indivíduos dizem ter sido levados a um “escritório celestial”, onde um funcionário divino verifica registros e percebe que houve um erro: a pessoa não deveria ter morrido (PASRICHA, 1992). Embora os elementos simbólicos variem conforme a cultura, os temas centrais — saída do corpo, encontros com seres espirituais, retorno forçado — permanecem constantes, sugerindo um núcleo experiencial comum (PASRICHA, 1992; PASRICHA, 1993).

Implicações Filosóficas: Evidência de Imortalidade?

Os relatos não se limitam a sensações: eles frequentemente contêm informações precisas e verificáveis, adquiridas em momentos nos quais, segundo a medicina, não deveria haver atividade cerebral capaz de sustentar consciência organizada (PARNIA et al., 2014; VAN LOMMEL et al., 2001). Tal fato desafia explicações puramente materialistas, que atribuem as EQM a ilusões produzidas por um cérebro moribundo.

Pesquisadores como Pim van Lommel defendem que as EQM não podem ser totalmente explicadas pela neurofisiologia, considerando que a memória clara e a percepção detalhada ocorreram durante períodos de ausência de perfusão cerebral (VAN LOMMEL et al., 2001). Essa constatação leva a uma hipótese ousada: a consciência pode não ser um produto do cérebro, mas algo que o utiliza como interface temporária, capaz de continuar existindo após a morte física.

Transformações e Sentido Existencial

Outro dado notável é o impacto existencial. Pessoas que vivenciam EQM relatam uma mudança duradoura: perda do medo da morte, aumento da empatia, valorização do amor e da compaixão. Como sintetiza Greyson (1983), essas experiências “são lembradas não como sonhos, mas como eventos mais reais do que a própria vida”.

A filosofia contemporânea, especialmente em correntes não materialistas, começa a considerar seriamente a possibilidade de que a consciência seja primária e não derivada. Se a consciência não depende totalmente do cérebro, como sugerem as EQM, isso implica que a morte não é aniquilação, mas transição. Como escreveu William James, “a imortalidade é uma questão de fato” — e os relatos das EQM parecem apontar para esse fato com força crescente (JAMES, 1898).

Conclusão

Esse fenômeno, longe de ser marginal, toca na questão central que atravessa filosofia e espiritualidade: a morte é um fim ou uma passagem? Assim, embora a ciência não tenha ainda uma resposta definitiva, a soma de evidências e testemunhos leva a uma reflexão inevitável: talvez não sejamos seres humanos que têm experiências espirituais, mas seres espirituais que têm experiências humanas.

Referências

GREYSON, B. The Near-Death Experience Scale: Construction, Reliability, and Validity. Journal of Nervous and Mental Disease, v. 171, n. 6, p. 369–375, 1983. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6854303/&gt;. Acesso em: 03. set. 2025.

JAMES, W. Human Immortality: Two Supposed Objections to the Doctrine. Boston: Houghton Mifflin, 1898.

MOODY, R. Life After Life: The Bestselling Original Investigation That Revealed “Near-Death Experiences”. New York: Harper One, 1975/2015.

PARNIA, S. et al. AWARE—AWAreness during REsuscitation—A prospective study. Resuscitation, v. 85, n. 12, p. 1799–1805, 2014. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25301715/&gt;. Acesso em: 03. set. 2025.

PASRICHA, S. Near-death experiences in south India: A systematic survey in Channapatna. National Institute of Mental Health and Neuro Sciences Journal, v. 10, p. 111-118, 1992.

PASRICHA, S. A systematic survey of near-death experiences in south India. Journal of Scientific Exploration, v. 7, n. 2, p. 161-171, 1993. Disponível em: <https://psycnet.apa.org/record/1996-16378-001&gt;. Acesso em: 03. set. 2025.

SABOM, M. Light and Death: One Doctor’s Fascinating Account of Near-Death Experiences. Grand Rapids: Zondervan, 1998.

SABOM, M. Commentary on ‘Does Paranormal Perception Occur in Near-Death Experiences? Journal of Near-Death Studies, v. 25, n. 4, p. 257–260, 2007. Disponível em: <https://digital.library.unt.edu/ark:/67531/metadc799458/m2/1/high_res_d/vol25-no4-257.pdf&gt;. Acesso em: 04. set. 2025.

SHARP, K. C. After the Light: What I Discovered on the Other Side of Life That Can Change Your World. New York: William Morrow, 1995.

VAN LOMMEL, P. et al. Near-Death Experience in Survivors of Cardiac Arrest: A Prospective Study in the Netherlands. The Lancet, v. 358, n. 9298, p. 2039–2045, 2001. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11755611/&gt;. Acesso em: 04. set. 2025.

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