A Influência da Lua no Organismo Humano

Introdução

A ideia de que a Lua influencia aspectos da fisiologia e do comportamento humanos é antiga e culturalmente difundida. Nas últimas décadas, estudos em cronobiologia, epidemiologia e fisiologia têm buscado avaliar empiricamente essa hipótese. Há evidências heterogêneas: alguns estudos apontam para efeitos sutis e intermitentes da fase lunar sobre o sono (CAJOCHEN et al., 2013; CASIRAGHI et al., 2021) e — em parcelas específicas da população — sobre ritmos reprodutivos (HELFRICH-FÖRSTER et al., 2021), enquanto outros estudos em grandes bases de dados não encontram correlações robustas (HELLO CLUE, 2019).

A consonância entre a duração média do ciclo menstrual feminino (~28–29 dias) e o mês lunar (~29,53 dias) gerou, historicamente, a hipótese de uma relação biológica entre a Lua e os ritmos reprodutivos humanos. Paralelamente, relatos populares e alguns estudos científicos sugerem efeitos lunares sobre sono, comportamento e padrões de internação psiquiátrica (FOSTER; ROENNEBERG, 2008; ZIMECKI, 2006).

Propostas de Mecanismos Fisiológicos

Iluminação Noturna e Melatonina

O mecanismo mais simples é a influência da luminosidade noturna da Lua sobre o sistema circadiano via retina e supressão de melatonina. A luz noturna, mesmo em intensidades bem menores que a luz solar, pode modular liberação de melatonina e a latência de sono, afetando o início e a consolidação do sono. Em ambientes rurais sem iluminação artificial, isso pode ser particularmente relevante (BRAINARD et al., 2001; CAJOCHEN et al., 2013); mas em áreas urbanas, o efeito da Lua tende a ser mascarado pela poluição luminosa (NAVARA; NELSON, 2007).

Forças Gravimétricas e Variáveis Geofísicas

Outra hipótese invoca a variação gravimétrica associada a ciclos lunares (perigeu/apogeu, sinódico, anomalístico). Embora a força gravitacional lunar sobre um corpo humano seja minúscula, a Lua modula fenômenos geofísicos (marés, pressão atmosférica, campos geomagnéticos) que, por sua vez, poderiam alterar parâmetros ambientais percebidos por organismos sensíveis a variações muito pequenas (ZIMECKI, 2006).

Campos Eletromagnéticos e Magnetosfera

A passagem da Lua pela magnetotail (cauda magnética) terrestre e eventuais alterações locais de campos eletromagnéticos foram propostas como vias de influência biológica. Evidência direta em humanos é limitada; contudo, variações geomagnéticas já foram associadas a desfechos cardiovasculares relevantes, como o aumento de casos de morte súbita cardíaca em determinados períodos de atividade geomagnética (STOUPEL et al., 2002).

Evidências Empíricas

Sono

Estudos experimentais e de campo fornecem suporte para efeitos lunares sobre o sono, embora com variabilidade. Cajochen et al. (2013), em estudo controlado de laboratório, mostraram redução do tempo total de sono e níveis mais baixos de melatonina próximos à lua cheia. Casiraghi et al. (2021), em populações indígenas e urbanas, observaram início de sono mais tardio e menor duração de sono na semana que precede a lua cheia. No entanto, análises maiores e reavaliações de bases de dados nem sempre replicaram esses efeitos (CORDI et al., 2014), sugerindo que, quando presente, o impacto é pequeno.

Ciclo Reprodutivo Feminino (menstruação e ovulação)

A relação entre fases lunares e início da menstruação ou fertilidade tem sido investigada com resultados mistos. Helfrich-Förster et al. (2021), em estudo longitudinal, mostraram que algumas mulheres sincronizam seus ciclos menstruais com fases de luminância e ciclos gravimétricos. No entanto, análises em larga escala de milhões de ciclos coletados por aplicativos de monitoramento menstrual, como o Clue, não encontraram associação populacional robusta (HELLO CLUE, 2019). Isso sugere que qualquer efeito é intermitente e dependente de fatores individuais e ambientais, como idade e exposição à luz artificial.

Saúde Mental e Internações Psiquiátricas

A crença popular de que a lua cheia aumenta crises psiquiátricas é antiga. Essa noção se deu pois observou-se que na fase da lua cheia os quadros de pacientes psiquiátricos pioravam. Por essa razão, eles passaram a ser chamados de “lunáticos”. Não obstante, essa hipótese nunca foi estudada seriamente.

Outros Sistemas (imunidade, parto, comportamento)

Estudos históricos sugeriram leves variações em taxas de parto próximas à lua cheia (ARLISS et al., 2005), mas os efeitos são modestos e inconsistentes. Em animais marinhos, a sincronização com a Lua é evidente, mas em humanos é fraca e sujeita a influências culturais (CUTLER, 1980).

Limitações Metodológicas e Explicações Alternativas

  1. Variação individual: efeitos podem ser fortes em subgrupos e ausentes em outros (HELFRICH-FÖRSTER et al., 2021).
  2. Exposição à luz artificial: urbanização e poluição luminosa reduzem a relação entre iluminação lunar e fisiologia (NAVARA; NELSON, 2007).
  3. Viés de publicação: estudos pequenos podem superestimar efeitos (CORDI et al., 2014).
  4. Confundidores sazonais e sociais: fatores externos podem gerar padrões falsamente atribuídos à Lua (FOSTER; ROENNEBERG, 2008).

Conclusões

A literatura científica contemporânea aponta para efeitos lunares possíveis, especialmente sobre o sono e, em alguns indivíduos, sobre ritmos reprodutivos femininos. O mecanismo mais plausível envolve a exposição à luz lunar e sua influência sobre a melatonina; hipóteses gravimétricas e eletromagnéticas permanecem especulativas. Pesquisas futuras precisam combinar registros longos e controles ambientais para distinguir verdadeiros efeitos biológicos de artefatos estatísticos.

Referências

ARLISS, J. M.et al. The effect of the lunar cycle on frequency of births and birth complications. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 192, n. 5, p. 1462-1464, 2005. Disponível em: <https://www.ajog.org/article/S0002-9378(05)00005-0/abstract&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

BRAINARD, G. C. et al. Action spectrum for melatonin regulation in humans: evidence for a novel circadian photoreceptor. Journal of Neuroscience, v. 21, n. 16, p. 6405–6412, 2001. Disponível em: <https://www.jneurosci.org/content/21/16/6405&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

CAJOCHEN, C. et al. Evidence that the lunar cycle influences human sleep. Current Biology, v. 23, n. 15, p. 1485–1488, 2013. Disponível em: <https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(13)00754-9?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS096
0982213007549%3Fshowall%3Dtrue>. Acesso em: 10. set. 2025.

CASIRAGHI, L. et al. Moonstruck sleep: Synchronization of human sleep with the moon cycle under field conditions. Science Advances, v. 7, n. 5, eabe0465, 2012. Disponível em: <https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abe0465&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

CORDI, M. J. Lunar cycle effects on sleep and the file drawer problem. Current Biology, v. 24, n. 12, PR549–R550, 2014. Disponível em: <https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(14)00542-9?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960
982214005429%3Fshowall%3Dtrue>. Acesso em: 10. set. 2025.

CUTLER, W. B. Lunar and menstrual phase locking. American Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 137, n. 7, p. 834–839, 1980. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7405975/&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

FOSTER, R. G.; ROENNEBERG, T. Human responses to the geophysical daily, annual and lunar cycles. Current Biology, v. 18, n. 17, R784–R794, 2008. Disponível em: <https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(08)00865-8?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960
982208008658%3Fshowall%3Dtrue>. Acesso em: 10. set. 2025.

HELFRICH-FÖRSTER, C. et al. Women temporarily synchronize their menstrual cycles with the luminance and gravimetric cycles of the Moon. Science Advances, v. 7, n. 5, eabe0465, 2021. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7840133/&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

HELLO CLUE. The myth of moon phases and menstruation. 2019. Disponível em: <https://helloclue.com/articles/cycle-a-z/myth-moon-phases-menstruation&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

NAVARA, K. J.; NELSON, R. J. The dark side of light at night: physiological, epidemiological, and ecological consequences. Journal of Pineal Research, v. 43, n. 3, p. 215–224, 2007. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1600-079X.2007.00473.x&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

STOUPEL, E. et al. Sudden cardiac death and geomagnetic activity: Links to age, gender and agony time. Journal of Basic and Clinical Physiology and Pharmacology, v. 13, n. 1, p. 11-21, 2002. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12099401/&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

ZIMECKI, M. The lunar cycle: effects on human and animal behavior and physiology. Postepy Hig Med Dosw, v. 60, p. 1–7, 2006. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16407788/&gt;. Acesso em: 10. set. 2025.

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close