
Introdução
O dilema moral do trem (trolley problem) tornou-se um dos experimentos de pensamento mais discutidos na filosofia moral contemporânea. Ele nos convida a refletir sobre o peso das consequências, das intenções e dos princípios éticos que orientam nossas escolhas em situações de vida ou morte. Mais do que buscar uma solução prática imediata, esse dilema funciona como um espelho da condição humana, revelando tensões profundas entre racionalidade e emoção, entre cálculo utilitário e respeito incondicional pela dignidade da pessoa.
Origem e formulações clássicas
Philippa Foot (1967), ao discutir a doutrina do duplo efeito, apresentou o exemplo do trem desgovernado que pode ser desviado para uma linha onde morrerá apenas uma pessoa em vez de cinco. A questão, aparentemente simples, já mostrava como escolhas morais podem nos forçar a pesar vidas humanas. Judith Jarvis Thomson (1976) desenvolveu novas variantes — como o caso do “footbridge”, em que salvar cinco vidas exigiria empurrar um homem para deter o trem — que revelam nuances mais sutis: por que parece mais aceitável virar uma alavanca do que empurrar alguém com as próprias mãos?
Essa diferença aparentemente pequena toca em algo essencial da nossa moralidade: a distinção entre permitir que um mal ocorra e agir ativamente para produzi-lo.
Grandes correntes de resposta
Três tradições filosóficas se destacam ao interpretar o dilema:
1. O utilitarismo: Inspirado em autores como John Stuart Mill (1861/2005), defende que devemos escolher a ação que maximize o bem-estar coletivo. Nesse espírito, desviar o trem para salvar cinco em detrimento de um seria não apenas permitido, mas exigido.
2. A ética kantiana: Para Kant (1785/1998), a moralidade não se reduz a cálculos de felicidade. Há limites invioláveis: nunca se pode tratar uma pessoa apenas como meio para atingir um fim. Por isso, empurrar alguém para a morte seria moralmente inadmissível, mesmo que salvasse muitas vidas.
3. A doutrina do duplo efeito: Retomada por Foot (1967), distingue entre efeitos intencionais e colaterais. Assim, desviar o trem pode ser justificável se a morte de uma pessoa não for o objetivo, mas apenas uma consequência indesejada, enquanto empurrar alguém seria intencionalmente usá-lo como meio.
Avanços contemporâneos: Frances Kamm
Frances Kamm (1989; 2015) aprofunda essas distinções, mostrando que não basta opor “matar” a “deixar morrer”. Para ela, o dilema envolve questões de causalidade, proximidade e respeito pela inviolabilidade de cada indivíduo. Sua análise, conhecida como trolley-ology, busca princípios mais finos que expliquem nossas intuições: por que em alguns casos aceitamos sacrificar um para salvar muitos, e em outros não?
Evidência empírica
A filosofia ganhou aqui o diálogo com a ciência. Greene et al. (2001), por meio de estudos de neuroimagem, revelaram que julgamentos morais diferentes ativam áreas distintas do cérebro: dilemas impessoais (como virar uma alavanca) despertam mais raciocínio cognitivo, enquanto dilemas pessoais (como empurrar alguém) mobilizam áreas emocionais. Isso sugere que nossa moralidade é tecida pela interação entre razão e emoção, sem que uma elimine a outra.
Aplicações atuais
O dilema do trem deixou de ser apenas exercício de imaginação. Hoje ele aparece em discussões sobre ética das tecnologias, como no caso dos veículos autônomos. Bonnefon e colaboradores (2016) mostraram que a opinião pública oscila entre preferir carros programados para salvar o maior número possível de pessoas e desejar, individualmente, que o carro priorize a segurança do próprio passageiro. Aqui, o dilema do trem revela não apenas tensões morais, mas também paradoxos sociais e políticos.
Questões abertas
O dilema permanece vivo porque nenhuma resposta é plenamente satisfatória. Devemos seguir nossas intuições morais espontâneas ou princípios racionais universais? A vida de um pode ser sacrificada pelo bem de muitos? Até que ponto a intenção pesa mais que a consequência? Essas perguntas não têm respostas definitivas, mas iluminam a complexidade da ética e a fragilidade das nossas convicções diante de escolhas trágicas.
Conclusão
O dilema do trem nos lembra que a filosofia não se limita a abstrações: ela toca no cerne da experiência humana, quando estamos diante do sofrimento, da morte e da responsabilidade. Seja na reflexão sobre princípios universais, seja no desenho de algoritmos que tomarão decisões em nosso lugar, esse dilema continua a nos desafiar a pensar sobre o que realmente significa agir moralmente.
Referências
BONNEFON, J.-F. et al. The social dilemma of autonomous vehicles. Science, v. 352, n. 6293, p. 1573–1576, 2016. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/301293464_The_Social_Dilemma_of_Aut
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FOOT, P. The problem of abortion and the doctrine of double effect. Oxford Review, n. 5, p. 5–15, 1967. Disponível em: <https://philpapers.org/archive/footpo-2.pdf>. Acesso em: 16. set. 2025.
GREENE, J. D. et al. An fMRI investigation of emotional engagement in moral judgment. Science, v. 293, n. 5537, p. 2105–2108, 2001. Disponível em: <https://www.science.org/doi/10.1126/science.1062872>. Acesso em: 16. set. 2025.
KAMM, F. M. Harming some to save others. Philosophical Studies, v. 57, n. 3, p. 227–260, 1989. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/4320077>. Acesso em: 16. set. 2025.
KAMM, F. M. The Trolley Problem Mysteries. Oxford: Oxford University Press, 2015.
KANT, I. Groundwork of the Metaphysics of Morals. Cambridge: Cambridge University Press, 1785/1998.
MILL, J. S. Utilitarismo. Porto: Porto Editora, 1861/2005.
THOMSON, J. J. Killing, letting die, and the trolley problem. The Monist, v. 59, n. 2, p. 204–217, 1976. Disponível em: <https://academic.oup.com/monist/article-abstract/59/2/204/1360123?redirectedFrom=fulltext&login=false>. Acesso em: 16. set. 2025.
