
Introdução
A questão do mal tem atravessado séculos de reflexão filosófica e religiosa, sendo um dos dilemas mais persistentes do pensamento humano. Se Deus é onipotente, onisciente e absolutamente bom, por que o mal existe? Este questionamento, conhecido como teodiceia, foi formulado de modo clássico por Epicuro, retomado por Agostinho, aprofundado por Leibniz e, em perspectivas distintas, reinterpretado por tradições religiosas e correntes modernas de pensamento. Além do campo estritamente teológico, o mal também foi abordado por perspectivas filosóficas e psicológicas, como na análise freudiana do “mal-estar na civilização”. Este artigo explora algumas dessas abordagens: a visão gnóstica sobre o caráter maligno do mundo material, a reflexão filosófica sobre a permissão divina do mal e a crítica psicanalítica sobre o conflito inevitável entre instinto e cultura.
A Teodiceia: Por que Deus Permite o Mal?
Na tradição filosófica cristã, o problema foi enfrentado de modo distinto. Agostinho de Hipona (354–430) concebia o mal não como uma substância, mas como privatio boni, isto é, a privação ou ausência do bem. Para ele, Deus não criou o mal, mas dotou as criaturas racionais de livre-arbítrio, permitindo-lhes escolher entre o bem e o mal (AGOSTINHO, 2017). O mal, portanto, seria consequência do mau uso da liberdade criada, não da vontade divina.
Séculos mais tarde, Leibniz, em sua Teodiceia (1710), procurou conciliar a bondade e onipotência divinas com a existência do mal, defendendo que este é inevitável no “melhor dos mundos possíveis”. Deus, ao criar, teria considerado todas as alternativas lógicas possíveis, e a realidade atual, embora marcada pelo sofrimento, seria a configuração mais perfeita em termos globais (LEIBNIZ, 1985).
Já em correntes contemporâneas, como a teologia do processo, autores como Whitehead e Hartshorne sustentam que Deus não possui onipotência absoluta sobre os eventos, mas atua persuasivamente, de modo que o mal surge da autonomia das criaturas e da contingência do devir (COBB; GRIFFIN, 1976). Essa releitura desloca a questão da permissão divina para uma visão de Deus em processo, limitado no seu poder coercitivo.
O Mal na Tradição Gnóstica
Os movimentos gnósticos dos primeiros séculos do cristianismo ofereceram uma resposta radical ao problema do mal. Para muitos gnósticos, o mundo material não é obra de um Deus bondoso, mas de um demiurgo – uma entidade inferior, ignorante ou até mesmo maligna, responsável pela criação do cosmos visível (PAGELS, 1979). Essa cosmovisão implicava que a própria existência terrena é uma prisão para a centelha divina presente no ser humano, mantida sob o domínio de arcontes trevosos que governam a ordem material (JONAS, 2001).
Nesse sentido, diferentemente da tradição judaico-cristã ortodoxa que afirma a bondade essencial da criação (Gn 1:31), os gnósticos concebiam o mundo como intrinsecamente mau, e a salvação consistia na libertação espiritual desse aprisionamento material por meio do conhecimento (gnosis). Essa interpretação radical do mal como inerente ao cosmos físico ilustra uma das formulações mais pessimistas sobre a condição humana.
Freud e o Mal-Estar na Civilização
Ainda que não se trate de um pensador religioso, Freud abordou o problema do mal de maneira indireta em O Mal-Estar na Civilização (Das Unbehagen in der Kultur, 1930). Para ele, a tensão fundamental da vida humana não reside em uma entidade metafísica maligna, mas na contradição estrutural entre os instintos humanos (particularmente os sexuais e agressivos) e as exigências da vida em sociedade (FREUD, 2011).
A civilização, ao impor restrições aos impulsos individuais em nome da convivência coletiva, gera inevitavelmente frustração, angústia e hostilidade. O “mal-estar” é, portanto, constitutivo da vida civilizada e não pode ser erradicado. Embora não fale de “mal” no sentido teológico, Freud localiza no próprio funcionamento da psique e da cultura uma dimensão trágica, que dialoga indiretamente com a questão filosófico-religiosa.
Considerações Finais
O problema do mal é um dos mais persistentes desafios intelectuais da humanidade. Nas tradições gnósticas, o mundo material era visto como domínio de forças malignas; em Agostinho e Leibniz, como resultado da liberdade ou da necessidade de compor um mundo globalmente ótimo; na psicanálise freudiana, como efeito inevitável do choque entre instinto e civilização. Em todas essas abordagens, a presença do mal é reconhecida como incontornável, ainda que interpretada por lentes diversas. O debate permanece atual porque toca em questões existenciais fundamentais: o sofrimento, a injustiça, a violência e a própria condição humana diante do mistério do divino.
Referências
AGOSTINHO. Confissões. Trad. Lorenzo Mammì. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.
COBB, J. B.; GRIFFIN, D. R. Process Theology: An Introductory Exposition. Philadelphia: Westminster Press, 1976.
FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
JONAS, H. The Gnostic Religion: The Message of the Alien God and the Beginnings of Christianity. 3. ed. Boston: Beacon Press, 2001.
LEIBNIZ, G. W.. Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a Liberdade do Homem e a Origem do Mal. Trad. William C. Gomes. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
PAGELS, E. The Gnostic Gospels. New York: Random House, 1979.
