
Introdução
O chamado Dilema do Navio de Teseu constitui um dos problemas mais clássicos da filosofia da identidade e da persistência dos objetos ao longo do tempo. A questão, originada na Antiguidade grega, problematiza a relação entre mudança material e continuidade ontológica. Se todas as partes de um objeto são substituídas gradualmente, ele permanece o mesmo objeto ou se transforma em outro? Esta indagação não apenas desafia concepções intuitivas de identidade, mas também tem implicações contemporâneas em áreas como metafísica, filosofia da mente, bioética e até tecnologia.
Origem Histórica do Paradoxo
O primeiro registro da questão aparece em Plutarco, em sua obra Vidas Paralelas. Ao narrar a história de Teseu, Plutarco descreve que seu navio foi preservado em Atenas, mas, ao longo do tempo, as partes deterioradas eram substituídas por novas, até que nenhuma peça original permanecia. Plutarco afirma que, “para os filósofos, este navio representava um exemplo adequado à discussão sobre o ‘argumento do crescimento’, defendendo uns que o navio continuava a ser o mesmo e outros que já o não era” (PLUTARCO, 2008, p.69). A problemática atravessou séculos de reflexão, reaparecendo em textos de filósofos modernos e contemporâneos.
O Problema da Identidade e Persistência
O dilema levanta a questão sobre os critérios de identidade: o que torna um objeto o mesmo ao longo do tempo? Aristóteles já havia diferenciado entre matéria e forma, apontando que a substância não se confunde simplesmente com seus componentes materiais (ARISTÓTELES, 2012). Esse raciocínio abre a possibilidade de considerar que a identidade do navio poderia residir em sua forma ou função, e não apenas em sua matéria.
Na filosofia moderna, Thomas Hobbes reformulou o dilema: se todas as peças removidas do navio fossem usadas para reconstruí-lo, qual das duas embarcações seria o verdadeiro navio de Teseu? (HOBBES, 1655/2009). Essa versão acentua o paradoxo ao confrontar duas pretensões igualmente plausíveis de identidade.
Leituras Contemporâneas
Filósofos contemporâneos têm se debruçado sobre o dilema com diferentes abordagens. Para Peter Geach (1972), a noção de identidade deve ser relativizada ao contexto, o que permitiria admitir múltiplos critérios de identidade sem contradição. Já Willard Quine (1960), ao problematizar a noção de identidade absoluta, sugere que paradoxos como o do navio de Teseu revelam os limites da linguagem e da lógica formal aplicados ao mundo ordinário.
Além disso, Derek Parfit (1984), em sua análise sobre identidade pessoal, utiliza analogias com o paradoxo para questionar a necessidade da identidade numérica como critério fundamental da persistência. Para ele, a continuidade psicológica ou estrutural pode ser mais relevante do que a identidade estrita. Assim, o dilema do navio de Teseu transcende o âmbito da metafísica dos objetos e alcança debates sobre a natureza do “eu”.
Implicações Contemporâneas
O dilema mantém relevância não apenas como exercício filosófico, mas também como metáfora para debates atuais. Em bioética, questiona-se a identidade do corpo humano diante de transplantes, próteses e clonagem. Na filosofia da tecnologia, discute-se a identidade de sistemas digitais sujeitos a upgrades e substituições contínuas. No campo da inteligência artificial, o paradoxo ressurge ao se pensar sobre a persistência de agentes artificiais diante de substituições de hardware e software.
Conclusão
O dilema do Navio de Teseu permanece como um dos problemas mais provocativos da filosofia, ao tensionar a relação entre continuidade e mudança. Da reflexão de Plutarco às análises contemporâneas, a questão convida a repensar as bases ontológicas da identidade. A indagação sobre “o mesmo” e “o outro” revela não apenas um problema lógico, mas também uma chave hermenêutica para compreender a condição humana diante da impermanência.
Referências
ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. 2. ed. São Paulo: Edipro, 2012.
GEACH, P. T. Logic Matters. Berkeley: University of California Press, 1972.
HOBBES, T. Elementa Philosophiae Sectio Prima De Corpore. Whitefish: Kessinger Publishing, 1655/2009.
PARFIT, D. Reasons and Persons. Oxford: Clarendon Press, 1984.
PLUTARCO. Vidas Paralelas: Teseu e Rómulo. Trad. Delfim Leão e Mario do Céu Fialho. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2008.
QUINE, W. V. O. Word and Object. Cambridge: MIT Press, 1960.
