Dopamina: a molécula do prazer?

Introdução

A dopamina é uma das substâncias químicas mais importantes do cérebro humano. Muito além de ser apenas o “neurotransmissor do prazer”, como costuma ser chamada, ela desempenha papéis fundamentais na motivação, no aprendizado, no movimento e no modo como reagimos a recompensas e estímulos do ambiente. Em termos simples, é a dopamina que faz com que busquemos aquilo que desejamos — sejam metas, alimentos, relacionamentos ou experiências emocionantes (SCHULTZ et al., 1997; BERRIDGE; ROBINSON, 1998; WISE, 2004).

Embora a sensação de prazer dependa também de outros sistemas, como os circuitos opioides, a dopamina está profundamente envolvida na motivação e na aprendizagem associadas às recompensas. Entender como ela atua é essencial para compreender comportamentos normais — e também distorcidos — como o vício em jogos de apostas.

Onde a dopamina age no cérebro: principais circuitos dopaminérgicos

A dopamina é produzida em algumas áreas específicas do cérebro, mas seus efeitos se espalham por diversas regiões que trabalham de forma interligada. Entre as mais importantes estão:

  • Área Tegmental Ventral (VTA): localizada no centro do cérebro, essa região envia sinais dopaminérgicos para várias outras áreas, em especial o núcleo accumbens e o córtex pré-frontal. Juntas, essas regiões formam o que os cientistas chamam de viamesolímbica, o principal circuito do prazer e da motivação (BEIER et al., 2015; LAMMEL; LIM; MALENKA, 2014; WISE, 2004).
  • Substância Negra (pars compacta): ligada ao controle dos movimentos e a funções de recompensa – formação de hábitos – (SONNE et al., 2025), envia dopamina para o estriado dorsal, participando tanto de ações voluntárias quanto de comportamentos automáticos.
  • Núcleo Accumbens: é considerado o centro de recompensa do cérebro. Quando há liberação de dopamina nessa região, sentimos motivação e impulso para agir em direção a algo que associamos a prazer ou recompensa.
  • Córtex Pré-frontal: responsável por planejar, tomar decisões e controlar impulsos. Ele interage com a dopamina para avaliar riscos e benefícios antes de agir.
  • Amígdala e Hipocampo: contribuem para a ligação entre emoção, memória e experiência de recompensa — é por isso que lembranças prazerosas podem gerar vontade de repetir um comportamento.
  • Habenula Lateral: atua como uma espécie de “freio” da dopamina, sinalizando quando algo é decepcionante ou punitivo, ajudando-nos a evitar erros futuros (SAYEGH et al., 2024).

Essas regiões formam circuitos em que a dopamina funciona como uma espécie de mensageira, ajustando o quanto sentimos motivação, interesse e prazer em diferentes situações.

Como a dopamina funciona

A dopamina não atua de forma constante; ela é liberada em momentos específicos. Quando algo inesperadamente bom acontece, o cérebro libera um pico rápido de dopamina. Essa liberação ensina o cérebro que aquele evento foi positivo, reforçando a tendência de buscá-lo novamente (SCHULTZ et al., 1997).

Com o tempo, o cérebro aprende a liberar dopamina antes mesmo do prazer em si — por exemplo, quando reconhece sinais que indicam que a recompensa está por vir. Isso é o que nos faz sentir empolgação diante da expectativa.

Ao contrário do que muitos pensam, a dopamina não é exatamente o prazer em si, mas o impulso de buscar o prazer. Como afirmam Berridge e Robinson (1998), ela está mais ligada ao “querer” do que ao “gostar”. Isso significa que é possível querer algo intensamente sem necessariamente sentir prazer ao obtê-lo — fenômeno comum em vários tipos de vício.

Dopamina, prazer e motivação

Os estudos modernos mostram que a dopamina está mais relacionada à motivação do que ao prazer puro. Enquanto o prazer hedônico — aquela sensação agradável que sentimos — depende também de outros neurotransmissores, como os opioides, a dopamina nos dá energia, foco e direção para buscar recompensas (BERRIDGE; ROBINSON, 2016; WISE, 2004).

Essa distinção é fundamental: o sistema dopaminérgico nos impulsiona a agir, mas não garante que o resultado seja prazeroso. Ele está presente em comportamentos tão diferentes quanto estudar, se alimentar, se apaixonar ou apostar — sempre que há algo que o cérebro associa à possibilidade de ganho ou recompensa.

O exemplo do vício em jogos de apostas

Um exemplo claro de como a dopamina pode se tornar um problema é o vício em jogos de apostas (Gambling Disorder). Durante o jogo, o cérebro libera dopamina no núcleo accumbens, principalmente quando o resultado é incerto. Essa imprevisibilidade — típica dos jogos de azar — é o que torna o vício tão poderoso (LINNET et al., 2011; POTENZA, 2013).

Cada vez que o jogador quase ganha, ou ganha de forma inesperada, há uma descarga de dopamina que reforça o comportamento, levando o cérebro a desejar repetir a experiência. Com o tempo, o prazer diminui, mas o impulso de jogar continua — o indivíduo “quer” jogar, mesmo sem mais “gostar” disso (BERRIDGE; ROBINSON, 1998; BERRIDGE; ROBINSON, 2016).

Estudos de imagem cerebral mostram que pessoas com transtorno de jogo apresentam aumento na capacidade de síntese de dopamina no estriado dorsal, o que pode contribuir para comportamentos compulsivos (VAN HOLST et al., 2018).

Além disso, o comportamento tende a se automatizar. O que começa como uma escolha consciente acaba se tornando um hábito difícil de controlar, pois o circuito de decisão passa a envolver regiões mais profundas e automáticas do cérebro, como o estriado dorsal (CLARK et al., 2013).

O desequilíbrio dopaminérgico na era moderna

A psiquiatra Anna Lembke, em Dopamine Nation (2021), descreve como a abundância de estímulos modernos — como redes sociais, jogos, comida ultrapalatável e pornografia — pode desregular o sistema dopaminérgico. Quando o cérebro é constantemente exposto a picos de prazer, ele tenta se equilibrar reduzindo a sensibilidade à dopamina. Com isso, precisamos de cada vez mais estímulo para sentir o mesmo prazer, e passamos a experimentar desconforto ou tédio na ausência dele — um ciclo muito parecido com o das dependências químicas (LEMBKE, 2021; NUTT et al., 2015).

Segundo Lembke, esse desequilíbrio entre prazer e dor leva a uma sociedade de excesso e exaustão emocional: buscamos prazer de forma imediata e constante, mas acabamos mais ansiosos e menos satisfeitos. A autora propõe o conceito de “abstinência dopaminérgica” — períodos de redução de estímulos — como forma de restaurar o equilíbrio do sistema.

Conclusão

A dopamina é um dos pilares do funcionamento cognitivo humano. Ela molda nossa capacidade de desejar, aprender e agir, conectando emoção, memória e motivação. Apesar de sua fama de “molécula do prazer”, sua função principal é impulsionar a busca por recompensas e reforçar comportamentos.

Quando esse sistema sai do equilíbrio — como no vício em jogos de apostas — a dopamina pode transformar o desejo em compulsão. O prazer se apaga, mas a vontade de repetir o comportamento permanece.

A obra Dopamine Nation nos alerta que essa dinâmica não se limita aos vícios clássicos: ela está presente em muitos aspectos da vida moderna. Restaurar o equilíbrio entre prazer e moderação é, portanto, uma tarefa não apenas individual, mas cultural.

Referências

BEIER, K. T. et al. Circuit architecture of VTA dopamine neurons revealed by systematic input–output mapping. Cell, v. 162, n. 3, p. 622–634, 2015. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4522312/?utm_source=chatgpt.com&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

BERRIDGE, K. C.; ROBINSON, T. E. What is the role of dopamine in reward: hedonic impact, reward learning, or incentive salience? Brain Research Reviews, v. 28, n. 3, p. 309–369, 1998. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0165017398000198?via%3Dihub&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

BERRIDGE, K. C.; ROBINSON, T. E. Liking, Wanting and the Incentive-Sensitization Theory of Addiction. The American Psychologist, v. 71, n. 8, p. 670-679, 2016. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5171207/&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

CLARK, L. et al. Pathological Choice: the neuroscience of gambling and gambling addiction. Journal of Neuroscience, v. 33, n. 45, p. 17617–17623, 2013. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3858640/&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

LAMMEL, S.; LIM, B. K.; MALENKA, R. C. Reward and aversion in a heterogeneous midbrain dopamine system. Neuropharmacology, v. 76, p. 351–359, 2014. Disponível em: <https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3778102/&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

LEMBKE, A. Dopamine Nation: Finding Balance in the Age of Indulgence. Nova Iorque: Dutton, 2021.

LINNET, J. et al. Dopamine release in ventral striatum during Iowa Gambling Task performance is associated with increased excitement levels in pathological gambling. Addiction, v. 106, n. 2, p. 383–390, 2011. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1360-0443.2010.03126.x&gt;. Acesso em: 09. out. 2025.

NUTT, D. J. et al. The dopamine theory of addiction: 40 years of highs and lows. Nature Reviews Neuroscience, v. 16, n. 5, p. 305–312, 2015. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25873042/&gt;. Acesso em: 09. out. 2025.

POTENZA, M. N. How central is dopamine to pathological gambling or gambling disorder? Frontiers in Behavioral Neuroscience, v. 7, n. 206, 2013. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/journals/behavioral-neuroscience/articles/10.3389/fnbeh.2013.00206/full&gt;. Acesso em: 09. out. 2025.

SAYEGH, F. J. P. et al. Ventral tegmental area dopamine projections to the hippocampus trigger long-term potentiation and contextual learning. Nature Communications, v. 15, n. 4100, 2024. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/s41467-024-47481-4#citeas&gt;. Acesso em: 09. out. 2025.

SCHULTZ, W. et al. A neural substrate of prediction and reward. Science, v. 275, n. 5306, p. 1593–1599, 1997. Disponível em: <https://www.science.org/doi/10.1126/science.275.5306.1593&gt;. Acesso em: 09. out. 2025.

SONNE, J. et al. Neuroanatomy, Substantia Nigra. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing, 2025 Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK536995/?utm_source=chatgpt.com&gt;. Acessoe m: 09. out. 2025.

VAN HOLST, R. J. et al. Increased Striatal Dopamine Synthesis Capacity in Gambling Addiction. Biological Psychiatry, v. 83, n. 12, p. 1036–1043, 2018. Disponível em: <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28728675/&gt;. Acesso em: 9 out. 2025.

WISE, R. A. Dopamine, learning and motivation. Nature Reviews Neuroscience, v. 5, p. 483–494, 2004. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/nrn1406?utm_source=chatgpt.com#citeas&gt;. Acesso em: 08. out. 2025.

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