A Quaresma e suas Raízes na Páscoa Judaica: Êxodo, as 10 Pragas e o Simbolismo Bíblico do Número 40

A tradição cristã da Quaresma, período de quarenta dias de preparação espiritual que antecede a Páscoa, possui profundas raízes históricas e teológicas no universo religioso judaico, particularmente na celebração da Páscoa judaica (Pesach). Para compreender adequadamente o significado desse tempo litúrgico no cristianismo, é necessário retornar às narrativas fundacionais do povo hebreu registradas no livro do Êxodo, que relatam a libertação dos israelitas da escravidão no Egito sob a liderança de Moisés. Esse evento não apenas constitui um dos pilares da identidade religiosa judaica, mas também influenciou decisivamente a teologia cristã primitiva, que reinterpretou a ideia de libertação em termos espirituais e soteriológicos (SARNA, 1996; LEVINE, 2006).

Segundo a tradição bíblica, os hebreus viveram durante séculos sob domínio egípcio até que Moisés, figura central da história religiosa de Israel, foi chamado por Deus para conduzir seu povo rumo à liberdade. O relato do Êxodo descreve uma série de intervenções divinas conhecidas como as Dez Pragas do Egito, que teriam sido enviadas com o objetivo de persuadir o faraó a libertar os israelitas. Entre essas pragas figuram a transformação das águas do Nilo em sangue, a invasão de rãs e insetos, epidemias, trevas e, por fim, a morte dos primogênitos egípcios — episódio decisivo que levou à instituição da Páscoa judaica (SARNA, 1996). Nesse contexto, os hebreus foram instruídos a marcar as portas de suas casas com o sangue de um cordeiro sacrificado, sinal que os protegeria durante a última praga. O termo hebraico pesach refere-se precisamente a essa ideia de “passagem” ou “passar por cima”, simbolizando a proteção divina e o início da libertação do povo de Israel.

A saída do Egito, conhecida como Êxodo, tornou-se um dos eventos mais significativos da história religiosa do Antigo Oriente Próximo e da tradição bíblica. Após a libertação, os israelitas iniciaram uma longa jornada rumo à Terra Prometida, período que, segundo a narrativa bíblica, durou quarenta anos no deserto. Durante esse tempo, consolidaram-se aspectos fundamentais da religião israelita, incluindo a aliança entre Deus e o povo, a entrega da Lei no monte Sinai e a formação de uma identidade coletiva baseada na experiência da libertação e da fidelidade divina (FINKELSTEIN; SILBERMAN, 2001).

É nesse ponto que emerge um elemento simbólico recorrente na literatura bíblica: o número quarenta. O número 40 aparece na Bíblia entre 142 e 146 vezes, dependendo da versão. Assim como Moisés passou 40 dias no monte Sinai recebendo a Lei de Deus e 40 anos vagando pelo deserto com o seu povo, o dilúvio durou 40 dias e 40 noites, Jesus jejuou por 40 dias e também ficou 40 dias na Terra depois da sua ressurreição. E não vamos nos esquecer da quaresma, o período de purificação de 40 dias que antecede a Páscoa. O número quarenta simboliza um período necessário de preparação antes de atingir um estado de elevação espiritual maior, representando um ciclo completo.

Do ponto de vista da exegese bíblica e da história das religiões, muitos estudiosos observam que o número quarenta, na tradição semítica, frequentemente indica um tempo simbólico de transição, provação ou maturação espiritual. Ele aparece associado a momentos decisivos da história sagrada, nos quais ocorre uma transformação profunda na relação entre o ser humano e o divino. Assim, a jornada de quarenta anos no deserto pode ser interpretada não apenas como um período histórico ou narrativo, mas como um processo pedagógico e espiritual no qual o povo de Israel é preparado para assumir sua vocação religiosa e nacional (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2000).

No cristianismo primitivo, essa simbologia foi reinterpretada à luz da vida de Jesus. Os Evangelhos relatam que Jesus passou quarenta dias no deserto em jejum e oração antes de iniciar seu ministério público, episódio que ecoa diretamente as experiências de Moisés e do povo de Israel. A Quaresma, desenvolvida gradualmente na tradição da Igreja entre os séculos II e IV, institucionalizou esse período como um tempo de penitência, reflexão e preparação espiritual para a celebração da ressurreição de Cristo (BRADSHAW; JOHNSON, 2011). Desse modo, a prática quaresmal não surge isoladamente na história cristã, mas dialoga com uma longa tradição simbólica e teológica herdada do judaísmo.

A relação entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã revela também uma continuidade interpretativa significativa. Enquanto a Páscoa judaica celebra a libertação histórica da escravidão no Egito e a formação do povo de Israel, a Páscoa cristã passou a ser entendida como a libertação espiritual do pecado e da morte por meio da morte e ressurreição de Cristo. Esse processo de releitura teológica foi fundamental para a formação da identidade cristã, que manteve a memória do Êxodo como um arquétipo de redenção e transformação espiritual (LEVINE, 2006).

Portanto, ao refletirmos sobre a Quaresma e seu significado contemporâneo, torna-se evidente que esse período litúrgico não pode ser plenamente compreendido sem considerar suas raízes históricas e simbólicas na tradição bíblica judaica. A narrativa do Êxodo, as Dez Pragas, a jornada no deserto e o simbolismo do número quarenta compõem um conjunto de elementos que atravessaram séculos de interpretação religiosa e continuam a influenciar a espiritualidade de milhões de pessoas ao redor do mundo. Assim, a Quaresma pode ser vista não apenas como um tempo de disciplina espiritual, mas como a atualização de um antigo paradigma de preparação, transformação e esperança — um caminho que remonta à experiência fundadora de libertação do povo hebreu e que permanece vivo na tradição religiosa ocidental.

Referências

BRADSHAW, Paul F.; JOHNSON, Maxwell E. The Origins of Feasts, Fasts and Seasons in Early Christianity. Collegeville: Liturgical Press, 2011.

FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil A. The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. Nova Iorque: Free Press, 2001.

LEVINE, Amy-Jill. The Misunderstood Jew: The Church and the Scandal of the Jewish Jesus. Nova Iorque: HarperOne, 2006.

SARNA, Nahum M. Exploring Exodus: The Origins of Biblical Israel. Nova Iorque: Schocken Books, 1996.

WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H; CHAVALAS, Mark W. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. Downers Grove: InterVarsity Press, 2000.

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